domingo, 4 de abril de 2010

MANUEL FARIA E A SUA OBRA

MANUEL FARIA e a sua obra

Depois de falar de Manuel Faria como homem bom, sábio e pedagogo exemplar, gostava de falar do “nada” que nestes vinte e cinco anos após a sua morte se fez, colocando a sua obra “debaixo do alqueire”.
Logo após a sua morte ainda se promoveram algumas homenagens, nomeadamente a execução da Missa em honra de Nª Srª de Fátima adaptada magistralmente para orquestra pelo seu e nosso querido amigo Joaquim dos Santos que, no momento em que escrevo estas linhas, soube que também partiu para o Pai mesmo sem se despedir dos amigos. Além desse concerto surgiram mais algumas manifestações em jeito de homenagem e de saudade. Mas depressa passou ao rol dos esquecidos.
Já em 1998 a sua sobrinha, Cristina Faria, fez uma síntese da vida e obra de Manuel Faria. Na nota de abertura o seu pai, Dr. Francisco Faria, refere que este trabalho “é também um ponto de partida para quem quiser, em completo à-vontade, estudar uma das grandes personalidades desta época e um criador que urge tornar conhecido no meio musical desta Pátria que sempre amou”.
Os seus discípulos e amigos estão completamente de acordo. Mas... como é possível estudar, reproduzir, publicar e interpretar as suas obras se as mesmas são desconhecidas artistas e do público? Já sairam dos caixotes da Universidade de Coimbra? Já foram digitalizadas? Onde pára, por exemplo, o “Auto da Fundação e Conquista de Coimbra” que nunca foi executada, como afirma Cristina Faria? Como pode ser executada se ninguém a conhece? Um grande número de obras que constam do catálogo elaborado pela Autora não são minimamente conhecidas. Se continuarem no caixote sê-lo-ão? E quem deve tomar a iniciativa? Não serão os familiares e a Fundação Manuel Faria cuja actividade parece envolvida numa névoa?
Acho que a vitalidade da Música Sacra após a morte de Manuel Faria, de Fernandes da Silva há poucos anos e, agora, de Joaquim dos Santos se encontra abandalhada como um rebanho sem pastor. Já em 1967, na I semana de Música Sacra em Braga, Manuel Faria se batia denodadamente pela pureza da Música na Liturgia afirmando a esse respeito: “.... todos os que pautam a sua vida por uma “Fé”, lutam por causas perdidas... Não quero saber se a causa (da Música Sacra) é perdida ou ganha. Só quero saber se é de Deus ou do diabo. Dentro da barca de Pedro não me importo de ir para o fundo. .....” (in Manuel Faria, Vida e Obra, de Cristina Faria, pág. 36).
Poucas vezes se falou, durante estes vinte e cinco anos, da obra de Manuel Faria sobretudo com a preocupação de a mostrar e colocar à apreciação dos seus discípulos, amigos e amantes da boa música. Pergunto: como executá-la e apreciá-la se não sabemos onde ela está para a dar a conhecer? Não estará aqui, no esquecimento do Mestre, uma das razões da banalização da Música Sacra? Não é a história vivida pelos nossos maiores e o conhecimento da mesma um precioso contributo para a construção da nossa própria história?
Não aceito que Manuel Faria tenha “morrido”. Não entendo este silêncio de vinte e cinco anos. Não compreendo a ausência de estímulos que conduzam a actual geração a uma sadia prática musical, no caso concreto, à escolha e execução de boa Música Litúrgica. Onde estará o problema? Um está na falta imperdoável do esquecimento da nossa história, próximo passado. Mas há outras razões.
Costa Gomes

1 comentário:

Margarida Silva disse...

Muito boa tarde! Estou à procura de algumas informações e partituras de manuel faria e deparei-me com o seu interessante blog. Tem ideia de como poderei aceder ao ciclo de canções sobre textos de Fernando pessoa para canto e piano e para música coral? É impressionante como toda esta música está longe de ser executada e ouvida.
Obrigada pela atenção e muitos parabéns pelo blog,
Margarida Mendes