domingo, 4 de abril de 2010

A MÚSICA SACRA


A MÚSICA SACRA

A Música, enquanto parte integrante da própria liturgia, é uma das mais belas e elevadas formas de manifestação da nossa alegria pascal. Exprime, não só, louvor, acção de graças, exultação e júbilo mas também súplica, lamento, tragédia, arrependimento e profissão de fé.
Todos estes sentimentos ocorrem durante o acto litúrgico. A arte de os bem celebrar deve ser a grande preocupação, não só dos pastores mas também de todos os seus colaboradores.
Desde o início do Cristianismo não só foram seguidos os modelos de canto das sinagogas como incorporadas outras formas de cantar dos povos que se foram convertendo.
O repertório criado ao longo de vários séculos conduziu à grande polifonia sacra da renascença que continua, nos nossos dias, a ser recomendada como modelo de inspiração para o tempo actual.
É nosso dever manter vivo o tesouro musical herdado e enriquecê-lo com novas obras. Mas esta tarefa tem o profundo alcance de tocar a intimidade das pessoas que se dirigem a Deus. Daí a exigência de qualidade artística, a mesma do passado, porque só a qualidade atinge o íntimo da pessoa.
Isto implica que se evitem os extremos da mera repetição do que já existe ou da experimentação do que é fácil, banal e sem critério. A Igreja sempre procurou celebrar o Mistério Pascal com os elementos artísticos e culturais mais nobres de cada época da História considerando a ARTE como um meio privilegiado de contactar com as realidades divinas.

Adequada preparação dos intervenientes:
Preparação técnica e litúrgico-pastoral para uma correcta escolha de textos e melodias.
Qualidade artística: a música litúrgica tem como exigência fundamental a santidade e a beleza para que possam alimentar a oração e exprimir o Mistério de Cristo. As soluções fáceis estão em contradição com as exigências do Evangelho de Jesus Cristo. As soluções fáceis e exteriormente agradável são propostas da sociedade de consumo em que vivemos. Os caminhos de Deus não se anunciam ou promovem com facilitismos que despertam simplesmente as emoções passageiras ao sabor das modas, superficiais e sem qualquer qualidade artística.

GÉNEROS DE MÚSICA: Litúrgica e não litúrgica
Só os especialistas, seriamente preparados, quer em música quer em liturgia, é que serão capazes de fazer esta destrinça.
Sobretudo, após a segunda metade do séc. XX, determinados géneros de música conotados com ambientes de diversão, foram introduzidos nas celebrações. Isto só foi possível devido à falta de formação litúrgica e musical, agravada pela falta de formação religiosa e humana.
Exige-se, da parte dos compositores e directores artísticos, a suficiente humildade para se auto-examinar se são ou não especialistas preparados em música e liturgia. São indispensáveis a um compositor e director de música litúrgica a preparação técnica musical, a preparação em liturgia e nos ritos que a acompanham, a formação religiosa e a piedade cristã e, não menos importante, a humildade suficiente para sujeitar as suas composições a uma comissão dependente do Bispo a fim de serem ou não aprovadas para os actos oficiais da liturgia Divina.

INSTRUMENTOS MUSICAIS
O instrumento musical aceite como o “mais digno” é o órgão de tubos. Há, porém, outros instrumentos (electrónicos) com uma sonoridade muito próxima do órgão de tubos considerados dignos de o substituir. Muitos outros instrumentos podem ser usados na liturgia desde que não sejam demasiado ruidosos, sejam tocados com arte e contribuam para a edificação dos fiéis. Há outros instrumentos que, pelo facto de serem utilizados com frequência em contexto de divertimento profano, não devem ser introduzidos na liturgia. Contudo, o que deve prevalecer neste domínio, é o bom gosto, o conhecimento musical e a edificação do acto litúrgico lembrando, sempre, que estamos na presença do Deus Altíssimo.


CELEBRAÇÕES COM JOVENS
Há um atendência generalizada de, nas chamadas “eucaristias para jovens”, executarem cânticos (ou canções) muito próprias da sua jovialidade mas com pouco sentido litúrgico. Acontece, ainda, que não sendo toda a assembleia constituida por jovens, este como que “impõem” um determinado estilo que nada diz aos mais velhos. São, neste caso, os jovens os "usurpadores" do direito a participar, pelo canto, nos actos litúrgicos.
É necessário caminhar para o meio termo e recordar os princípios básicos: competência musical e competência litúrgica. Ao pastor ou alguém da sua confiança compete supervisionar, elucidar, formar e informar. Tem tanta obrigação de o fazer como um professor tem obrigação de cumprir o programa da sua área disciplinar.
É um hábito muito mau – e isto acontece quando os cãnticos são para as crianças – fazer adaptações de textos para melodias de outras proveniências, muitas vezes completamente profanas ou lúdicas. Por onde se dividirá o pensamento das crianças: pelo texto, supostamnte de cariz religioso ou pela melodia de carácter lúdico e profano?


ENCÍCLICA “MUSICAE SACRAE DISCIPLINA” de Pio XII (Resumo e actualidade)
A importância da Música no louvor a Deus
* Já no A.T. “todo o Israel dançava diante de Deus com instrumentos de madeira trabalhada: cítaras, liras, tímpanos, sistros e címbalos”.
* David fixou as regras da música no culto sagrado.
* As primitivas comunidades, mesmo antes de surgir o dia, cantavam um hino a Cristo.
* Tertuliano diz que, nas assembleias dos cristãos “se lêem as Escrituras, cantam salmos e promove-se a catequese”
* Após a liberdade concedida à Igreja surgiram novos hinos, novos cânticos consoante a cultura dos povos que se convertiam ao cristianismo.
* Após o séc. IX/X, com o surgimento de novos hinos e novas formas de cantar, a música litúrgica haveria de atingir o seu esplendor nos séc. XV/XVI com o apogeu da polifonia e dos conjuntos vocais acompanhados com o órgão de tubos.
* Como em todos os tempos, os abusos foram surgindo e houve necessidade da intervenção da autoridade eclesiástica no sentido de expurgar da música sacra tudo o que não contribuia para a sua verdadeira finalidade.
* A liberdade do artista (compositor ou director) deve sujeitar-se à finalidade última da sua criação: o culto divino. Assim, qualquer arte religiosa, exige artistas inspirados pela fé e pelo amor. A finalidade principal é a de elevar piedosamente a sua mente para Deus.

Em resumo:
A finalidade da música sacra deve:
*Trazer decoro e ornamento às vozes do sacerdote e do povo cristão que louva o Deus Altíssimo;
*Elevar os corações dos fiéis a Deus tornando vivas e fervorosas as orações litúrgicas e, assim, louvá-lo e invocá-lo com mais intimidade e eficácia;
* Devem, portanto, os cânticos serem executados com voz límpida e adequada expressão, o que implica e subentende uma adequada formação de quem compõe e de quem dirige.

Santo Agostinho diz que as nossas almas se elevam na piedade e na devoção de uma forma mais perfeita quanto as santas palavras são cantadas e os nossos sentimentos encontram no canto uma relação íntima que nos aproxima de Deus.

COMO ENSAIAR UM GRUPO CORAL…
• Se a obra é a uma só voz deverá proceder-se da seguinte forma:
• 1- Entoar toda a obra (para ficar com uma ideia do todo;
• 2- Ensaiar uma frase de cada vez. Ouvem bem o ensaiador e depois repetem várias vezes.
• 3- Vai juntando mais frases e o coral vai repetindo.
• 4- Entoar toda a obra e corrigir os possíveis erros.
• 5- Aplicar a dinâmica, colocar bem as vozes (perceptibilidade), controle do volume (sem vozes salientes), homogeneidade.

Se a obra é a várias vozes:
* O processo será o mesmo. Todavia, para não saturar o ensaiador (a menos que haja vários), este deverá fazer a gravação de cada voz em cassete como se se tratasse de uma só voz. Cada naipe, com o seu gravador e cassete, vai para uma sala e vão tentando decorar a obra. Passados poucos minutos esta está pronta a ser executada em conjunto.


CANTEM MAIS COM A ALMA DO QUE COM A GARGANTA. Sintam o que cantam; dêem sentido ao texto; não se limitem a serem máquinas de escrever ou grafonolas .

IN MEMORIAM de JOAQUIM DOS SANTOS

(Vilela, Cabeceiras de Basto, 13.4.1936 – Moimenta, Cabeceiras de Basto, 24.6.2008)

"Talvez começar por dizer que a morte de Joaquim dos Santos é a negação da própria morte. É-o para os crentes, para aqueles que o conheciam como padre e homem de crença profundamente cristã, comungando com ele a fé na vida eterna, a verdadeira vida que alcançamos depois da vida. Como também o é para os que não crêem, mas que o recordam como maestro de uma obra musical ímpar, prolífica e cheia de uma qualidade inspirada, de uma qualidade intocada, de uma qualidade verdadeiramente artística e excelente.

Joaquim dos Santos, Doutor Joaquim dos Santos, Padre Joaquim dos Santos, Maestro Joaquim dos Santos, permanece assim na memória e nas orações, e a sua obra, como a sua fé, granjeiam-lhe a eternidade.

E é, contudo, com um sentimento de tristeza e de perda que falamos de Joaquim dos Santos, que para além de artista e de membro da igreja, era um grande homem, um ser humano de excepcional bondade e gentileza e alegria e inteligência, destes que fazem realmente falta ao mundo. Eternidade rima, no seu caso, com saudade.

Outros lhe fizeram a biografia e o ensaio crítico, outros lhos farão, como é devido. Nós queremos-lhe fazer uma homenagem toda humana, recordar o poeta que tomou como mote, logo no início da sua carreira sacerdotal e musical, quando estudava em Roma no Instituto Pontifício de Música Sacra, os versos de Sebastião da Gama:

A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar…

Ai linda longa melodia imensa!…
- Por mim os dedos passa Deus e então
já sou apenas Som e não
se sabe mais da corda tensa…


Recordar o poeta que escolheu, quando se lhe ofereceram as posições de relevo em âmbito profissional e artístico, quando se lhe abriam as portas do mundo, a fuga do mundo, recolhendo-se nesse pedaço de paraíso onde viveu toda a sua vida – a Casa da Casinha, em Cabeceiras de Basto – tendo por companheira e amiga a sua irmã, Mariazinha, e nos últimos anos um cão que, de tão fiel, morreu no mesmo dia do dono.

Recordar, enfim, o poeta que de música teceu a sua poesia, e que à Roma da sua juventude e dos seus anos de formação regressou no final da vida, edificando aquela que será, provavelmente, a parte mais significativa, interessante e eminente da sua obra, o auge da sua maturidade artística e humana, indissociavelmente ligada à igreja nacional de Santo António dos Portugueses.

Muitas vezes, a criação da sua música era como que a sublimação do som das palavras. A ligação do Maestro Joaquim dos Santos à poesia foi fortíssima desde o exórdio romano (1963-1968) quando ousou apresentar no concerto anual do Pontifício Instituto de Música Sacra uma composição para coro e piano – o piano era então considerado um instrumento pouco adequado para a música religiosa – baseada em Sebastião da Gama. A corda tensa que sou foi apresentada a 22 de Maio de 1966, executada pelo coro dos alunos do Instituto e pelo pianista Luca Lombardi, dirigidos pelo próprio compositor.

Foram depois inúmeras as vezes que recorreu às palavras para compor. Era aquilo a que chamava as suas “ousadias”. Tal foi o caso das cantatas A Noiva do Marão e Santo António dos Portugueses e do oratório Travessia, construídas sobre poemas do bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, e todas três apresentadas em Santo António dos Portugueses. Recordamos também os poemas de Miguel Torga trazidos a Roma pelo Ançãble Vocal (27.04.2002) e todas aquelas composições baseadas em textos bíblicos, geralmente concebidas para o serviço religioso e divulgadas durante anos na Nova Revista de Música Sacra e em Música Nova, publicações periódicas que fundou e com as quais colaborou assiduamente.

A par do canto gregoriano, que veio estudar a Roma e cujos ecos sentimos em muitas das suas composições, outra fonte de inspiração primordial eram as melodias populares, recordação que vem das origens rurais em que a música fazia parte do quotidiano, no trabalho e na festa, e das tradições da sua própria família. Daí serem Cantigas da Minha Terra e Viva a pândega as primeiras obras que apresenta publicamente, ainda no tempo de frequência do Seminário Conciliar de Braga (18.03.1961) e toda uma vasta produção posterior, que tem um duplo e importantíssimo objectivo.

Por um lado, aquele da recolha etnográfica de temas tradicionais, passados informalmente de geração em geração, e por isso em perigo de se perderem; a sua fixação qualificada na pauta musical, e os arranjos que lhes fez posteriormente, adquirem assim um valor de conservação histórica, mas também o de inspiração de obras inovativas, na linha do que fizeram os maiores compositores portugueses do século XX. Por outro lado, e aqui se revela um generoso aspecto pedagógico e de incentivo das artes, as obras do Maestro eram feitas com o intuito de serem executadas, independentemente das capacidades técnicas dos executantes. Por isso, por longos anos, toda a sua produção foi considerada “menor”, associada redutoramente às suas numerosas composições para banda e para a liturgia. Um artista de grande fôlego criativo, mas que nunca se coibiu de escrever música para todos, de qualificar a vida dos mais humildes com a sua música, dedicando-lha e oferecendo-lha.

O encontro com Santo António dos Portugueses permitiu a Joaquim dos Santos, também neste capítulo, dar mostra da sua imensa capacidade inventiva, ilustrada e popular em simultâneo. Os responsórios para coro e órgão Christus factus est e Crucem tuam trazidos pelo Ançãble em 2001, o Prologus, 6 Impressões musicais do Evangelho de S. João executados pelas pianistas Ana Telles em 2002 e Rosa Villar Córdova em 2003, ou as 4 canções populares portuguesas (“Ó tia Aninhas”, andantino, “Espadeladas”, moderato assai, “Debaixo da oliveira”, andante cantabile e “O ratinho malcriado”, allegro grazioso) tocadas pelo Quintetto Metamorphosis em 2004 são disto exemplo. Pondo em destaque as raízes populares, eles são sem dúvida peças de música erudita, interpretada por instrumentos eruditos, em ambiente e para um público erudito.

Mas o encontro com a igreja nacional de Roma, feito através do seu reitor, Monsenhor Agostinho da Costa Borges, com quem estabeleceu rapidamente uma amizade profunda, constituiu em muitos outros aspectos um momento altíssimo na carreira de Joaquim dos Santos. Este fez-se através de Isaías Hipólito, aluno de Joaquim dos Santos no Seminário Conciliar de Braga, que orientara como organista e director os serviços litúrgicos da igreja de Santo António dos Portugueses, enquanto estudava em Roma, no final da década de 90.

A sua primeira obra executada na via dei Portoghesi foi, a 10 de Junho de 2000, Lamentações do Profeta Jeremias, pela então denominada Capela Musical de Santo António dos Portugueses, dirigida pelo Maestro Massimo Scapin. Assim se iniciava uma colaboração intensa, que não só o induziu a criar obras propositadamente para a igreja dos Portugueses, mas a fazê-lo muitas vezes em ocasiões de especial relevância dentro da agenda cultural da instituição, como fossem os dias de Portugal e das Comunidades Portuguesas, na festa do patrono, Santo António, ou nas celebrações da Imaculada Conceição.

Quatro anos após a sua estreia em Santo António, pelo dia de Portugal, Joaquim dos Santos trouxe em primeira audição um Concerto per pianoforte ed orchestra, executado por Ana Telles e pela Orchestra Nuova Amadeus dirigidas pelo Maestro Jean-Sébastien Béreau – um desafio lançado direcatmente pela pianista e pelo maestro ao compositor, que o aceitou. Para celebrar o patrono da igreja compôs a cantata Santo António dos Portugueses, em 2002 (com a participação do barítono Ettore Nova e a direcção de Anne Randine Overrby), a sinfonia Roma Eterna, em 2003 (direcção de Ovidiu Dan Chirila), e o Concerto para violino e orquestra, em 2005 (com o jovem Emanuel Salvador). Enfim, por ocasião da Imaculada Conceição, vieram a cena A Noiva do Marão em 2000, Carmen Fatimale e Arma virosque em 2005, Le forme dello spirito, em 2006 e o Concerto per violoncello e orchestra, em 2007 (com o violoncelista Simonpietro Cussino).

Estes e outros artistas que executaram obras de Joaquim dos Santos – e muitos houve para quem o Maestro escreveu propositadamente, tais como Giampaolo Di Rosa, Vítor Matos e Domingos Castro para não repetir nomes – recordam como na vida do Maestro música e amizade andassem a par: tantas amizades nascidas através da música e tanta música inspirada pelas amizades. A generosidade que o distinguia transpunha-se para a pauta; de facto, são propositadamente reduzidas as suas notações agógicas, dando oportunidade aos músicos de participarem na sua criação artística, interpretando mais livre e individualmente as linhas máximas da melodia que compusera. A música era princípio e fim e veículo das suas emoções, e por isso lhe era fácil fazer amizades através da música.

E talvez porque pusesse “a sua alma de sacerdote em cada coisa que fazia”, como costumava dizer, a música (princípio e fim e veículo das emoções) era matéria do seu máximo rigor e respeito enquanto expressão de uma inspiração divina, a “corda tensa” por onde passavam os dedos de Deus. E era assim que o seu trabalho se desenvolvia, amorosa e aturadamente, matutino, quotidiano, grave, ao som das águas correntes que atravessam os fundamentos da casa paterna, no seu escritório debruçado sobre o verde total do Minho, o Tâmega a correr em baixo e ao fundo a “Noiva do Marão”, o Santuário de Nossa Senhora da Graça, que lhe inspirou em 99 a magnífica cantata. O trabalho a par das orações que fazia regular e canonicamente, na capela dessa mesma casa

Em Roma permanece a recordação quase meia centena de obras apresentadas em oito anos, a maioria das quais em estreia absoluta em Santo António dos Portugueses, compostas propositadamente para esta igreja e para os seus artistas, a um ritmo admirável e inspirado, como se nele houvesse a percepção de que o tempo era escasso e precioso. Meia centena de obras correspondentes a cerca de trinta deslocações do compositor e de sua irmã à via dei Portoghesi, onde se sentiam bem, como em casa própria. Concertos que não esquecemos, em que não esquecemos esse grande homem, simples e genial, que falava com o seu sorriso."


in http://www.ipsar.org/modules.php?name=News&file=article&sid=12
por Francisco de Almeida Dias
Roma, Julho de 2008
Publicada por Nuno em 15:33 0 comentários
para ouvir... "Largada" - poemas do Mar, Miguel Torga


Largada.

Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiados por sinais
De uma agulha inquieta como elas.

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe, Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfunadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviram no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

Miguel Torga (1907 – 1995)


Publicada por Nuno em 15:18 0 comentários
Etiquetas: interpretação de Ãnça-ble vocal
Sábado, 12 de Julho de 2008
...o Maestro...13 de Abril de 1936
"Frequentou os seminários arquidiocesanos de Braga, onde iniciou os estudos musicais, que desenvolveu sobretudo sob orientação de Manuel Faria. Do seu principal mestre recebeu os primeiros impulsos para a composição musical, de que resultaram algumas obras, ainda como estudante; mas desse contacto resultou, sobretudo, o gosto pela composição, que implicou a exploração de novos caminhos musicais, mesmo se bastante distintos do mestre.

Ordenado presbítero e após breve passagem pelo Conservatório de Música de Braga, prosseguiu, a partir de 1963, os estudos em Roma, no Pontifício Instituto de Música Sacra, como bolseiro do Estado Italiano e da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1965 foi premiado pelas suas composições, que foram executadas em concerto.

Durante a sua estadia em Roma, fez ainda o curso de direcção e interpretação polifónica no Conservatório de Santa Cecília.

Regressado a Portugal, levou uma existência simples, entre a leccionação musical a vários níveis e, sobretudo, à composição. Por temperamento avesso a todo o tipo de protagonismo, durante a sua vida foi algo ignorado pelos seus compatriotas. Por outro lado, o seu estilo absolutamente oposto a qualquer género de exibicionismo ou snobismo contrastava com o seu entusiasmo pelas inovações musicais, sobretudo do séc. XX. Isso permitiu-lhe juntar, na sua basta obra, trechos de enorme simplicidade e profunda raiz popular com partituras elaboradas, ao nível da melhor produção musical contemporânea.

Das suas criações de maior vulto destaca-se um bom número de obras corais sinfónicas (Passio et mors D.N.J.C secundum Lucam, o oratório Travessia, as cantatas Le Forme dello Spirito, Sonho do Infante, Noiva do Marão, Santo António dos Portugueses, vários Stabat Mater, vários Te Deum, orquestração da Missa em honra de N.S de Fátima de Manuel Faria, etc.) assim como não menos significativo conjunto de obras de câmara (algumas com recurso a instrumentos como marimba, bandolim, bandocelo, etc). É também abundantíssima a sua produção coral, desde simples harmonizações de canções populares, passando por trechos litúrgicos de vários níveis de exigência, até grandes obras para coro, com acentuado poder descritivo e arrojadas soluções, que revelam considerável maturidade no conhecimento e no domínio da técnica vocal específica, para além de uma capacidade expressiva extraordinária, com recursos relativamente simples.

Do conjunto inabarcável da sua produção musical poderia destacar-se o tratamento da orquestra (desde concertos para violoncelo (2), violino, flauta, clarinete, piano e até dois pianos e orquestra), que demonstra de forma suprema na sinfonia “Roma Eterna”. Possivelmente por ter crescido numa família em que o som da flauta acompanhava o dia-a-dia; talvez por essa infância ter decorrido num dos recantos mais bucólicos do Minho; talvez também pelas influências musicais de outros compositores (com saliência para Stravinsky), é especialmente exemplar o seu tratamento dos sopros. Por um lado, salienta-se a mestria com que introduz e combina os metais, que demonstra uma convivência de décadas, através da prática de direcção de bandas; por outro lado, sobressai sobretudo a beleza bucólica e simultaneamente arrojada com que joga com as madeiras, em continuação pessoal e inovadora de passagens típicas de Stravinsky. Ritmicamente, para além do compositor russo, é clara a influência de Britten, que também deixou a sua marca em certa predilecção pela percussão.

Em obras coesas, perfeitamente unitárias e completas, consegue um estilo que acolhe, sem preconceitos nem discriminações, os contributos de diversas fases da história da música. Desde o gregoriano aos nossos dias, sem a falsidade da mera citação, mas também sem estéreis subjugações a escolas ou estilos rígidos. De forma singelamente pessoal e única, deixando para trás academismos de todo o género, antecipou e prosseguiu, numa coerência rara, uma espécie de «pós-modernidade» musical, muito para além de qualquer modernidade forçada ou de qualquer classicismo anacrónico. É, pelo contrário, a simplicidade do seu pensamento musical que determina os recursos a utilizar, resultando disso obras claramente contemporâneas e, simultaneamente, naturais, evidentes, por isso acessíveis ao público com um mínimo de sensibilidade musical."


por Professor João Duque
Publicada por Nuno em 7:17

D. Joaquim Gonçalves e Joaquim dos Santos




Ao despedir-se do seu (e nosso) grande amigo, Dr. Joaquim dos Santos, em 25 de Junho de 2008, o Bispo de Vila Real fez algumas afirmações que tocam no ponto fraco a que chegou, em muitas celebrações litúrgicas, a qualidade dos cãnticos. Dando os parabéns à Diocese de Braga pelo dom de muitos músicos e sacerdotes que se têm dedicado ao cultivo da boa música litúrgica ( e não só). Incentivou a Diocese a "não perder ou desperdiçar este filão precioso" dizendo, com convicção, que "compor não "é para qualquer um mas para especialistas". Disse mais: "os grupos corais não se podem arrogar o direito de trazer para dentro das igrejas o que lhes apetece" chegando mesmo a afirmar que "muitas das modinhas actuais, que contaminam a música sacra, são fruto da mesma laicização que anda a esconder crucifixos e as aulas de moral". Para o Bispo, ser compositor deve ser uma honra mas também um serviço à comunidade: " Joaquim Santos partiu; mas os seus cânticos continuarão a ser executados e a evangelizar muitas almas" por muitos e muitos anos.

JOAQUIM SANTOS E A SUA OBRA

“Braga perde um músico ímpar e compositor exímio”. Esta foi a afirmação do Sr. Arcebispo no dia do funeral e é, também, de todos quantos privaram com Joaquim dos Santos. Foi uma notícia inesperada e, em meu entender, demasiado precoce e escusada. Quem conhecia a “paixão” deste homem pela música e pelo exercício mental que o levava a um constante trabalho para satisfazer, gratuitamente, os pedidos que lhe faziam sabia que, após o primeiro indício de enfarte não o deviam ter deixado ir para casa durante uns tempos medicamente aceitáveis. Ele não resistia sem entrar no “santuário” do seu escritório. Não vivia para ele mas para os outros. Não procurava a fama mas a alegria de ver os outros felizes após a execução das suas obras. Claro que, como qualquer humano, gostava que o seu trabalho fosse reconhecido, com algumas palmas e muita alegria. Mas Deus assim o permitiu e, a partir de agora, não podemos fazer mais senão recordar a sua memória, pedir para que já esteja junto do Pai e seguir o seu exemplo executando, analisando e promovendo a sua obra para que, à maneira de Manuel Faria de cuja escola saiu este exímio compositor e vários outros de grande valor para a Música Sacra (e não só), também seja dada oportunidade a muitos dos seus admiradores de seguirem o caminho da Música Sacra e, mais adiante, estarem preparados para assumir os destinos da Música na Diocese. O tempo passa muito despressa. Temos de prevenir e preparar o futuro. Há talentos e sabemos onde eles estão. Há que apostar menos em “pedras” mortas e mais em “pedras” vivas. É uma virtude aplicar bem o dinheiro.
A propósito devo relembrar o pensamento e palavras de D. Jorge Ortiga no dia do funeral: “a vida do Padre Joaquim Santos foi isso mesmo: acolheu os talentos que Deus lhe deu e tornou-se, aos olhos d’Ele e dos homens, num músico ímpar e num compositor exímio” E continuou: “Deus é belo e Joaquim dos Santos, através da música, soube ser Sua testemunha”. E o Pastor conhece as carências da sua Diocese neste campo formulando votos para que “na Arquidiocese de Braga continuem a surgir pessoas com competências na área da música e componham a música de que precisamos”. Não deixou de reconhecer na obra de Joaquim dos Santos a “marca de qualidade na música que é interpretada nas celebrações”. Como ele tem razão!
Não dá para entender como se encontram à venda, em livrarias da Diocese, obras sem qualidade quer nos textos quer nas melodias, e sem o “imprimatur” da competente autoridade. No mínimo, nunca deveriam estar na mesma prateleira daquelas que têm o selo de qualidade. Vieram mesmo a propósito as palavras do amigo de longa data de Joaquim dos Santos, o Bispo D. Joaquim Gonçalves, no dia 25 de Junho. Depois de agradecer a amizade e os múltiplos poemas, da sua autoria, musicados pelo compositor falecido frisou: “isto de compor não é para qualquer um mas para especialistas” criticando as sonoridades que se ouvem em algumas celebrações. Referindo-se à laicização crescente que já avança para dentro dos templos referiu as “modinhas actuais que contaminam a música sacra” e advertiu os grupos corais (e, naturalmente, os seus maestros) que “não se podem arrogar o direito de trazer para dentro das igrejas o que lhes apetece”. Isto numa clara referência à “marca de qualidade” de que D. Jorge se havia falado.
O Presidente da Câmara de Cabeceiras fez uma síntese, para o DM, da personalidade de J. Santos que partilho inteiramente: “um homem simples, um sacerdote devotado e um compositor genial que muito honrou, honra e honrará Cabeceiras de Basto e as suas gentes”. E eu acrescento: também a Diocese de Braga e a Igreja de Santo António dos Portugueses em Itália onde apresentou as melhores obras concertísticas. E por cá conhecem-no?
Resta-nos preservar a sua memória, desejar que a sua obra seja dada à estampa, estudada, executada e que a humildade e simplicidade próprias de grandes compositores como ele, M. Faria e Fernandes da Silva encontre discípulos. Costa Gomes

MANUEL FARIA E A SUA OBRA

MANUEL FARIA e a sua obra

Depois de falar de Manuel Faria como homem bom, sábio e pedagogo exemplar, gostava de falar do “nada” que nestes vinte e cinco anos após a sua morte se fez, colocando a sua obra “debaixo do alqueire”.
Logo após a sua morte ainda se promoveram algumas homenagens, nomeadamente a execução da Missa em honra de Nª Srª de Fátima adaptada magistralmente para orquestra pelo seu e nosso querido amigo Joaquim dos Santos que, no momento em que escrevo estas linhas, soube que também partiu para o Pai mesmo sem se despedir dos amigos. Além desse concerto surgiram mais algumas manifestações em jeito de homenagem e de saudade. Mas depressa passou ao rol dos esquecidos.
Já em 1998 a sua sobrinha, Cristina Faria, fez uma síntese da vida e obra de Manuel Faria. Na nota de abertura o seu pai, Dr. Francisco Faria, refere que este trabalho “é também um ponto de partida para quem quiser, em completo à-vontade, estudar uma das grandes personalidades desta época e um criador que urge tornar conhecido no meio musical desta Pátria que sempre amou”.
Os seus discípulos e amigos estão completamente de acordo. Mas... como é possível estudar, reproduzir, publicar e interpretar as suas obras se as mesmas são desconhecidas artistas e do público? Já sairam dos caixotes da Universidade de Coimbra? Já foram digitalizadas? Onde pára, por exemplo, o “Auto da Fundação e Conquista de Coimbra” que nunca foi executada, como afirma Cristina Faria? Como pode ser executada se ninguém a conhece? Um grande número de obras que constam do catálogo elaborado pela Autora não são minimamente conhecidas. Se continuarem no caixote sê-lo-ão? E quem deve tomar a iniciativa? Não serão os familiares e a Fundação Manuel Faria cuja actividade parece envolvida numa névoa?
Acho que a vitalidade da Música Sacra após a morte de Manuel Faria, de Fernandes da Silva há poucos anos e, agora, de Joaquim dos Santos se encontra abandalhada como um rebanho sem pastor. Já em 1967, na I semana de Música Sacra em Braga, Manuel Faria se batia denodadamente pela pureza da Música na Liturgia afirmando a esse respeito: “.... todos os que pautam a sua vida por uma “Fé”, lutam por causas perdidas... Não quero saber se a causa (da Música Sacra) é perdida ou ganha. Só quero saber se é de Deus ou do diabo. Dentro da barca de Pedro não me importo de ir para o fundo. .....” (in Manuel Faria, Vida e Obra, de Cristina Faria, pág. 36).
Poucas vezes se falou, durante estes vinte e cinco anos, da obra de Manuel Faria sobretudo com a preocupação de a mostrar e colocar à apreciação dos seus discípulos, amigos e amantes da boa música. Pergunto: como executá-la e apreciá-la se não sabemos onde ela está para a dar a conhecer? Não estará aqui, no esquecimento do Mestre, uma das razões da banalização da Música Sacra? Não é a história vivida pelos nossos maiores e o conhecimento da mesma um precioso contributo para a construção da nossa própria história?
Não aceito que Manuel Faria tenha “morrido”. Não entendo este silêncio de vinte e cinco anos. Não compreendo a ausência de estímulos que conduzam a actual geração a uma sadia prática musical, no caso concreto, à escolha e execução de boa Música Litúrgica. Onde estará o problema? Um está na falta imperdoável do esquecimento da nossa história, próximo passado. Mas há outras razões.
Costa Gomes