domingo, 12 de março de 2017

O Festival de órgãos históricos



Tenho lido as notícias deste Diário sobre o próximo festival de órgãos históricos e, perante o que se pretende fazer, achei que deveria manifestar a minha opinião. Organista desde a juventude, sou do tempo em que fiz suar os foleiros para proporcionar melodias e harmonias dos dois órgãos de tubos do Seminário de Santiago: o positivo que vai ser restaurado e o grande órgão que, parece, vai ser arrumado. O positivo que estava na capela-mor, tocava todos os dias e só exigia um foleiro. O do coro tinha (tem) três teclados, pedaleira e exigia dois foleiros tal era o volume de ar necessário para tocar com a devida pressão. Na década de sessenta só tocava nas grandes solenidades litúrgicas. Era o único em Braga com pedaleira. Toquei nele em 1963 a quando da tomada de posse, como Arcebispo Primaz, de D. Francisco Maria da Silva e, a partir daí, não me lembro de o ouvir tocar mais.
Trata-se do primeiro órgão pneumático construído em Braga, obra prima de Augusto Claro, organeiro bracarense, estreado no início do século XX. Há quem diga que não vale a pena proceder à sua recuperação por ser demasiado cara. Será que a sua recuperação custa tanto como adquirir, no estrangeiro, um outro usado ainda que um pouco mais moderno? A verba de 500.000 € de que falava a notícia, já se refere a algum orçamento de reparação ou à aquisição de outro? Não valerá a pena conservar algo que é mesmo nosso em vez de dar vantagem ao que outros fizeram, sendo idêntico? Mais: a aquisição de um órgão “em condições” para Santiago é para os alunos poderem estudar, como dava a entender a notícia? Não temos, porventura, “montes” de órgãos electrónicos com pedaleira há mais de 50 anos, muito mais baratos e acessíveis onde se pode estudar, de dia e de noite, sem recorrer a um instrumento de tão grandes dimensões e de acessibilidade complicada como é o caso do coro de uma igreja?
Já tenho falado de um outro problema relacionado com os órgãos restaurados. A maior parte dos organistas, sobretudo os menos apreciadores da boa sonoridade na liturgia,  não gostam de tocar neles pois dá-lhes muito trabalho “jogar” com a diversidade de timbres e manusear os registos. Boa parte dos órgãos restaurados estão “mudos”. Faz-se uma festa por ocasião da inauguração do restauro, fazem-se discursos de circunstância e o instrumento “ressuscitado” do pó dos tempos volta a repousar até precisar de nova afinação e restauro. Só alguns é que tocam todas as semanas uma ou duas vezes, a saber: o da Sé (Evangelho), o de S. Victor, o de Montariol (moderno), o da Igreja do Salvador, o de Real, o de Adaúfe, o de Santa Cruz e,  creio que também o de S. Marcos. Caladinhos por tempo indeterminado estão: o positivo da Sé e, também, o do lado da Epístola, o da Misericórdia, o dos Congregados, o de S. Lázaro e o do IMA. Não sei  errei em algum caso. E é para isto que se gastam somas avultadas de dinheiro? Isto vem a propósito da formação de organistas de que falarei já.
O único órgão de Braga que, sozinho e com um bom “tangedor”, tem possibilidades de fazer um concerto é o grande da Sé. Embora não tenha pedaleira tem uma enorme quantidade e qualidade tímbrica e tem dois teclados que permitem jogar com variadas sonoridades. Os restantes só poderão facilitar um concerto se forem acompanhados com um ou mais instrumentos adequados ou por vozes. A sua finalidade é, antes de mais, colaborar e promover a qualidade, a alegria e a exuberância do canto na liturgia.
Os impulsionadores deste festival levantaram, também, uma outra ideia debatida diversas vezes e, praticamente, nunca concretizada: a aposta numa escola de órgão a partir da Gulbenkian ou da UM. Na década de 70 a Profª. Teodora Howel , também com formação superior de órgão, teve alguns alunos nesta disciplina mas, devido à falta de condições, o curso terminou. Não sei qual a razão de se falar deste assunto dando a entender que precisamos de começar da “estaca zero” quando, na realidade, já temos a escola de Música Diocesana a funcionar com um jovem organista com disponibilidade para receber mais alunos e segundo me consta, também temos no Seminário de Santiago um bom professor de órgão. Porquê, então, pensar em outras escolas?
Se os nossos recursos materiais, desde há muitos anos, fossem aproveitados teríamos alguma necessidade de recorrer, em cada Quaresma que passa, a artistas vindos de fora da diocese? Tanto dinheiro se gasta partindo do princípio de que “os que vem de fora é que são bons” e os de casa não passam de uma reserva para consumo interno! Já que somos pródigos em órgãos ibéricos e afins alguma vez se pensou em promover um curso (cadeira) de interpretação da música organística composta para esses órgãos?  É que, infelizmente, nem há muito repertório à venda nem há muitas gravações deste género musical.
A propósito da má utilização dos recursos, já Manuel Faria se queixava, a quando dos encontros de coros litúrgicos, que nunca se arranjava um cêntimo para ajudar os coralistas a pagar as deslocações aos locais de actuação. A mentalidade continua a mesma. É pena!  Continuamos a “amar” e a praticar a pobreza, sobretudo na liturgia ao Senhor de todas as riquezas.
Apesar da minha inconformidade com a não utilização dos nossos recursos, sempre é melhor ter o prazer de apreciar alguns bons momentos musicais do que nada.
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