Páginas

segunda-feira, 25 de maio de 2015

ENCONTROS DE COROS NA BASÍLICA DO SAMEIRO

Iniciou-se, no passado domingo, o primeiro encontro de coros Litúrgicos no Santuário do Sameiro. Estes encontros, que acontecem nos domingos a seguir à Páscoa, desde há três anos, têm como objectivo a apresentação das melhores obras musicais (cânticos litúrgicos) que cada coro trabalha e executa na liturgia da sua paróquia.
Neste passado domingo estiveram presentes os coros de Antime e Vinhós, Fafe , o coro de S. Tiago da Cruz, Famalicão e o Coro de Lama, Barcelos. Normalmente os coros paroquiais bem orientados- como tem sido o caso dos que se aceitam cantar no Sameiro- têm o cuidado de fazer uma escolha criteriosa dos textos e das músicas segundo os critérios dimanados do Concílio. Procuram cânticos com textos retirados da Sagrada Escritura, com sentido, com doutrina e trabalhados por peritos em literatura e liturgia. É claro que o efeito musical é de primeira importância já se destinam ao culto Divino e, por isso, a composição deve sair da mão (alma) de mestres na arte dos sons. Quase sempre escolhem autores consagrados com especial incidência no riquíssimo repertório dos compositores bracarenses, diocese com riquíssimo espólio para todos os actos litúrgicos e para todos os tempos litúrgicos. Claro que cada director artístico é livre na sua escolha.
Não pensem que os coralistas e os directores artísticos se preparam “com uma perna às costas”. Não é verdade. São muitas horas para ensaiar um cântico, para aperfeiçoar as vozes e sintonizá-las, em dias de calor e de frio e com o sacrifício do descanso. Fazem-no por gosto, por amor a uma causa e segundo os parâmetros da fé que professam. Absolutamente louvável tal atitude.
No próximo domingo teremos no Sameiro mais quatro coros: Ceide , Delães e Novo Rumo, de Famalicão e o Coro de Nossa Senhora do Sameiro.
É muito importante a formação de directores e organistas. Há muitos jovens que estudaram teclado nos conservatórios e academias que estão inactivos porque ninguém os convidou ou, então, têm receio de exercer tal tarefa. Acreditem que não é difícil e que não falta quem os ajude a integrar-se. Terão como recompensa a satisfação de serem úteis à comunidade e- quem sabe?- de ganhar algum prestando serviço onde não existe ninguém. Acreditem.

acostagomes@gmail.com

sábado, 21 de junho de 2014

ORAÇÃO AO PÃO


Nota: isto não é música. Mas soa tão bem!!!

Guerra Junqueiro  (1893 – Impresso no Porto em 1902)

Num grão de trigo habita 
Alma infinita. 

Alma latente, incerta, obscura, 
Mas que geme, que ri, que sonha, que murmura. 

Quando a seara é ceifada, acaso o grão 
Terá dor? Porque não! 

Um grão de trigo, 
Mil anos morto num jazigo. 

Dêem-lhe terra e luz, 
E ei-lo germina e cresce e floresce e produz. 

Vede lá, vede lá 
Quanto no eirado o trigo sofrerá! 

Pelo malho batido num terreiro, 
Um dia inteiro! 

E um dia inteiro, sem piedade, 
Coitadinho! rodado pela grade! 

Depois a tulha celular, 
A escuridão sem ar! 

Depois, depois, oh negra sorte ! 
Entre rochedos triturado até à morte! 

Oh pedras dos moinhos, mal sabeis 
O que fazeis!

Quantos milhões de crimes por minuto, 
Pedras de coração ferrenho e bruto! 

E as águas da levada vão cantando, 
Enquanto as pedras duras vão matando! 

E a moleirinha alegre também canta, 
E ri a água, e ri o sol, e ri a planta!...

Enfarinhada, branca moleirinha, 
É pó de cemitério essa farinha!... 

Loiro trigo a expirar por nosso bem. 
Sem um ai de ninguém! 

Loiro trigo inocente. 
Cuja morte horrorosa ninguém sente! 

E é por isso que ao fim do teu martírio 
És cor de lua, és cor de neve, és cor de lírio. 

Bendito sejas!
Simples por nós viveste, 
Puro por nós sofreste, 
Mártir por nós morreste! 

Bendito sejas! 
Perdeste a vida p'ra nos dar vida, 
Foste a imolar p'ra nos salvar; 

Bendito sejas! 

Bendito sejas, 
Trigo morto, cadáver fecundante, 
Ressuscitando em nós a cada instante! 

Bendito sejas, 
Bendito sejas, 
Bendito sejas, 

Trigo! corpo de Deus, — Pureza e Dor 
Nossa vítima e nosso redentor. 

Com quantos grãos de trigo um pão se fez? 
Dez mil talvez? 

Dez mil almas, dez mil calvários e agonias, 
Todos os dias. 

Para insuflar alentos na alma impura 
Duma só criatura! 

Homem, levanta a Deus o coração, 
Ao ver o pão. 

Ei-lo em cima da mesa do teu lar; 
Olha a mesa: um altar! 

Ei-lo, o vigor dos braços teus, 
O pão de Deus! 

Ei-lo, o sangue e a alegria 
Que teu peito robora e teu crânio alumia!

Ei-lo, a fraternidade, 
Ei-lo, a piedade, 
Ei-lo, a humildade, 

Ei-lo a concórdia, a bem-aventurança, 
A paz em Deus, tranquila e mansa! 

Comer é comungar. Ajoelha, orando, 
Em frente desse pão, ou duro ou brando. 

Antes que o mordas, tigre carniceiro, 
Ergue-o na luz, beija-o primeiro! 

Depois devora! O pão é corpo e alma 
Em corpo e alma 
O comerás. 
Tigre voraz!  

São dez mil almas, brancas, cor de lua, 
Transmigrando divinas para a tua! 
Sepultura do pão! boca de humanidade! 
Sob o infinito azul da imensidade 

Prega a Verdade! 
Boca harmoniosa, augusta voz da natureza. 
Canta a Beleza! 

Boca divina, boca em flor, 
Verte o perdão, sorri à Dor, unge-a de Amor!

Beleza, Amor, Verdade, 
Eis a Trindade! 

Três Deuses, juntos afinal 
Num só Deus imortal. 

A humanidade é seara imensa em chão de areia, 
Que Deus recolhe e Deus semeia. 

E cada homem, quer o rei, quer o mendigo, 
É na seara de Deus um grão de trigo. 

E a toda a hora, a todo o instante, há milhões de anos, 
Searas sem fim de espíritos humanos 

Brotam, florescem, crescem, são cortadas, 
E entre as mós do destino trituradas. 

E eis a farinha ideal, o fermento de dor, 
Que alimenta a Verdade, a Beleza, o Amor! 

De maneira que vós, homens pigmeus, 
Na terra sois o pão de Deus! 

A vossa alma é a claridade 
Que ilumina a Verdade. 

É a hóstia de luz, no mundo acesa 
Pela Beleza. 

É o relicário da roxa e dolorida flor, 
Donde goteja o mel do Amor. 

Homem! 
Pela Verdade, intrépido e sereno, 
Emborca a taça do veneno! 

Pela Verdade inteira. 
Dá teu corpo ao baraço, ao cutelo e à fogueira! 

Pela Verdade, sem pesar, 
Teus filhos deixarás e deixarás teu lar! 

Homem! 
Pela Beleza sacrossanta, 
Adora e canta!

Pela Beleza, música de Deus, 
Une-te a Deus! 

Pela Beleza ideal, ideal eucaristia, 
Faz do universo Espirito e Harmonia! 

Homem! 
Dá pelo Amor ao triste e ao desvalido 
Teu coração, teu pão e teu vestido! 

Pelo Amor, com teus lábios virginais 
Beija lepras e cancros de hospitais! 

Pelo Amor, pelo Amor, como Jesus, 
Sorri à Dor pregado numa cruz! 

Beleza, Amor, Verdade, 
Eis a Trindade, 
Eis o teu Deus. 

Homem! 
Vive por Deus! 
Sofre por Deus! 
Morre por Deus!

E bendito serás na eterna paz. 
Porque ao fechar os olhos teus, 
Trigo de Deus, absorto em Deus descansarás! 

Oremos: 

Trigo de Abril, riso e verdura, 
Dá-nos a candura! 

Trigo de Agosto, oiro que alumia, 
Dá-nos a alegria! 

Trigo da foice, trigo da grade, 
Dá-nos a humildade! 

Trigo da azenha, poeira de lirio, 
Dá-nos o martírio! 

Trigo do trigo, trigo da mesa, 
Dá-nos o amor e a dor, a paz e a fortaleza! 

Trigo, dá-nos a candura! 
Dá-nos a alegria! 
Dá-nos a humildade! 
Dá-nos o martírio! 
Dá-nos o amor e a dor, a paz e a fortaleza!

Dá-nos ao corpo tudo isto, 
Dá-nos à alma tudo isto, 
E faremos de nós o pão de Cristo, 
O pão de Deus, o pão do Bem, 
O pão da Eterna Glória, o pão dos pães. Amen. 



sexta-feira, 20 de junho de 2014

OS ENCONTROS DE COROS LITÚRGICOS NO SAMEIRO


No passado Domingo da Ascenção esteve no Sameiro o último grupo de Coros que apresentou algum do seu repertório e solenizaram os  actos litúrgicos da tarde. Foram os coros de Antime, de Fornelos/Medelo, de S. Gens e Infanto-Juvenil de Vinhós, todos do arciprestado de Fafe.
Participaram neste terceiro encontro no Sameiro catorze grupos corais distribuidos pelos arciprestados de Fafe (4), Barcelos (3), Guimarães (2), Famalicão (3) e Braga (2). As obras executadas sairam da criatividade de quinze compositores sendo quatro bracarenses os mais preferidos, a saber: M. Faria, S. Marques, M. Borda e B. Salgado.
Todos, no seu conjunto e em cada elemento, são merecedores do reconhecimento público, sobretudo das comunidades que dinamizam, pelo tempo que dedicam aos ensaios e pelos sacrifícios que estes causam.  Foi visível a satisfação com que participaram nestes encontros e o amor que dedicam à boa música coral (litúrgica). O instrumento predominante, para além da voz, foi o órgão. Apareceram outros clássicos, muito bem enquadrados e com intervenções adequadas. Surgiu, também, uma viola muito bem dedilhada, discreta e harmoniosa. O jovem tinha escola e fez o seu trabalho de casa. Como seria bom se os tocadores de viola nas nossas igrejas o fizessem só depois de estudar e de saber tocá-la como se de uma harpa ou cítara se tratasse!
Ficamos muito contentes com o aparecimento, nestes encontros, de mais um coral, o de Aborim, que se portou lindamente. Foi um exemplo digno de ser seguido por outros coros paroquiais que, sabemos, ainda são fiéis aos Mestres que nos precederam e deixaram um imenso repertório de música litúrgica que continua a enriquecer o património da música sacra Bracarense.

Não podemos  deixar de agradecer a amabilidade da  Confraria de Nossa Senhora  do Sameiro por estar receptiva à realização destes encontros na Basílica, com os constrangimentos que estas movimentações sempre provocam. No primeiro domingo de Julho a Confraria, através dos coros de Ribeirão (Famalicão) e Maximinos (Braga), promove uma homenagem ao sacerdote e compositor P. Henrique Faria, recentemente falecido, executando somente obras compostas por este sacerdote.
Neste final de festa fazemos três pedidos: 1.Que nas nossas celebrações se cante música de qualidade (aprovada) e se toquem instrumentos próprios da nossa cultura e com alguma mestria; 2.Que nestes encontros se inscrevam outros coros mesmo que algum dos veteranos tenha de fazer uma pausa; 3.Que daqui a uma ano estejamos cá para apreciar este crescimento que a Igreja pede e que tanto desejamos.
acostagomes@gmail.com

quinta-feira, 22 de maio de 2014

REGISTAÇÃO DO ÓRGÃO LITÚRGICO


(Algumas achegas)

Estão a decorrer encontros de coros no Sameiro desde o segundo domingo de Maio até ao primeiro de Junho. Na altura foi dito que a maior importância destes encontros não estava no “possível” espectáculo que cada coral poderia dar, com maior ou menor qualidade. A vantagem destes encontros é a troca de experiências: ouvir para fazer melhor, aperfeiçoar ou, - pode acontecer- evitar seguir tal exemplo.
Também no que respeita à execução do órgão há sempre algo a aprender. A maior parte dos órgãoes das nossas igrejas são electrónicos e de fácil manipulação. Mas é necessário conhecer regras básicas para que tal aconteça.
Há uns anos atrás a NR de Música Sacra, colectânea de inultrapassável valor artístico e litúrgico da nossa Diocese (e País), inseriu um artigo muito completo do Mestre P.Jorge Barbosa sobre este assunto. Todavia, como nem todos têm a possibilidade de “apanhar” um determinado artigo na hora em que surge, é necessário insistir, “oportuna e inoportunamente” na repetição da sâ doutrina. Neste caso, a registação de um órgão, função imprescindível para uma boa simbiose entre organista e coro, deve ser do conhecimento de quem tem a responsabilidade de oferecer uma harmonia que apoia mas não encobre as vozes dos cantores. O órgão deve apoiar e não afugentar quem canta e quem ouve. Vejamos, então, os aspectos básicos na registação de um órgão.
Embora quase todos venham pré-registados de fábrica com sonoridades dentro do piano, meio forte e forte, há quem prefira escolher os registos. Ora não se pode deixar de ter em conta que, a base de qualquer acompanhamento, são os registos de 8 e de 4 pés, evitando as palhetas (de cor encarnada). Os números estão assinalados nos registos. Basta colocar, em cada teclado, estes dois registos para que o acompanhamento seja claro e suficiente. Para quem quer ir um pouco mais longe deverá recorrer aos registos de  2 pés e a uma mistura para enriquecimento tímbrico. Normalmente, o teclado de baixo (o primeiro) é mais forte que o segundo a fim de que se possa alternar entre o meio forte e forte (a assembleia e o coro) e o piano (solistas).
Como muitos organistas tocam por acordes na mão esquerda e a melodia na direita, dão origem a um problema insuportável e doloroso para ouvidos mais apurados. Na realidade ainda temos bsatantes pessoas com formação superior nas várias áreas do saber que devem ser acolhidas com o mínimo de respeito nas nossas igrejas. Vejamos, então, o seguinte problema: o organista toca o acorde de dó (dó mi sol) na mão esquerda com os registos de 8 e 4 pés. Ainda se ouve com alguma sobriedade e delicadeza sem irritar os ouvidos nem encobrir as vozes. Mas se continuar a fazer acordes idênticos mais para a esquerda imaginem o “pastel sonoro”  que nos chega aos ouvidos e a falta de clareza na audição das vozes já que são encobertas pelos “ruidos” sombrios dos graves. Imaginem um pouco mais: além de oito pés ainda activou 16 e 32 bem como toda a “iluminação” do órgão, desde o primeiro ao ultimo cântico.Já imaginaram como sofrem as pessoas que vão à Eucaristia asim? Que falta de gosto e de bom senso! Que falta de competência por parte de alguns pastores! Que vergonha senti no final, quando ouvi os comentários deprimentes dos fiéis conforme iam saindo! Só que não sabiam explicar a razão de tão má disposição. Aonde  foi? Não vale a pena dizer porque, infelizmente, acontece em muitas Eucaristias.
Os responsáveis dos coros têm pouca formação não só musical mas, sobretudo, litúrgica. Desconhecem (ou não querem conhecer) a riqueza musical produzida na nossa diocese e aprovada pelo competente autoridade, Recorrem, então, à internete onde se encontram sítios verdadeiramente pornográficos no que se refere à música pretensamente litúrgica. Como discípulo de Manuel Faria  só me apetecia gritar: volte cá, meu bom Amigo e ponha ordem na casa de Deus. O problema é que, nos dias que decorrem, nem a gritar nos conseguimos fazer ouvir,  tal como na política.

acostagomes@gmail.com

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

PADRES, CANTAI!!!!


Em 1990, no fim do III Encontro Mundial dos Directores de Coros Liturgicos em Roma, foi publicado um pequeno relato do que tinha acontecido, que dizia:
"O lamento mais frequente que se ouviu durante o Congresso, a crítica mais amarga que se teceu foi contra os padres: os padres já não cantam na liturgia. A liturgia antiga era cantada por todos, padres e povo: o sacerdote cantava as belas Missas cantadas, sustentava e animava o canto dos fiéis; hoje, na Liturgia renovada, o padre fala muito mas não canta quase nada. Os Padres já não cantam! É uma constatação geral e alarmante. as razões estão talvez nos Seminários, onde a música e o canto são tratados como coisa de menor importância ou são totalmente postos de parte. Verifica-se que uma assembleia litúrgica nunca poderá entoar uma resposta cantada, nunca poderá cantar uma aclamação se não for provocada pelo presidente pelo seu canto. Notam-se incongruências absurdas, como quando o padre convida: "Agora leiamos o canto de entrada", ou quando convida a cantar com os Anjos e os Arcanjos, com Tronos e as Dominações e com a multidão dos coros celestes numa só voz, e depois ataca um miserável Santo  só balbuciado. Deste Congresso dirige-se a todos os sacerdotes do mundo este pedido: Padres, cantai!"
No número 115 da Sacrossanctum Concilium, relativamente à música, é dito:
"Dê-se grande importância nos Seminários, Noviciados e casas de estudos religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e prática musical"
No número 52 do documento "Musicam Sacram" é dito:
"Para conservar o tesouro da Música sacra e promover devidamente novas criações, 'dê-se grande importância nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e prática musical', mas sobretudo, nos institutos superiores especialmente destinados a isto. Deve promover-se antes de mais o estudo e a prática do canto gregoriano, já que, pelas suas qualidades próprias, continua a ser uma base de grande valor para o cultivo da Música Sagrada"
Braga foi a  Diocese que mais promoveu a Música Sacra no séc XX, através do Seminário Conciliar (ainda hoje, exemplo de escola de música sacra para futuros padres: solfejo, canto gregoriano e polifonia) e de  grandes compositores tais como, P. Manuel Alaio (fundador da escola de música de Braga e fundador do orfeão do Seminário Conciliar de Braga), P. Benjamim Salgado, P. Manuel Faria Borda, P. Alberto Brás (Autor do Hino do Seminário Conciliar de Braga), P. M. Simões, P. José Fernandes da Silva, P. Joaquim dos Santos, P. Manuel Faria (grande homem da música. O maior compositor  de música Sacra do Séc XX. Fundador da NRMS), P. Henrique Faria e António Azevedo de Oliveira, entre outros, talvez não tanto conhecidos.
Vale a pena pensar nisto.................

--
Saudações cordiais,
A Equipa de Liturgia

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O estado da Música Sacra


Ex.mo e Rev.mo Senhor
D. Jorge Ortiga
Dig.mo Arcebispo Primaz de Braga

As minhas cordiais saudações.
Estou a escrever-te, através do meio mais fácil e rápido do nosso tempo, sobre o que se passa na nossa Diocese, de exemplares tradições, no campo da música sacra.
Quase todos os domingos, quando ligo o rádio (RR), fico perturbado com o que ouço.
  • Ontem, dia do Corpo de Deus e no domingo passado senti-me envergonhado, mais uma vez. Em Celeirós, na Eucaristia transmitida pela RR, ouvi a mesma solista em todos os cânticos, acompanhada por instrumentos pouco ou nada ortodoxos,  a quem foi entregue o “papel” de representar o coral da paróquia. Pensei: o Apolinário deixou-se dominar pela “onda” e esqueceu o que aprendeu no Seminário e o que dizem os documentos conciliares. Para que a “festa” tivesse mais solenidade pegaram numa melodia “rock” Americana e introduziram-lhe a aclamação ao Evangelho. Aleluia… para Nosso Senhor qualquer coisinha serve!!!
  • Domingo, como cântico de entrada na Missa do Seminário de Santiago foi a tão conhecida melodia “amigos tão  bons vale a pena juntar” com um piedoso texto a enfeitá-la.
  • Estas situações são recorrentes em muitos cantos da diocese começando- ó céus!- por Dume onde trabalho há mais de 40 anos com o grupo coral mas  não sou tido em conta pelo meu conterrâneo, P. Armindo. O coral dos jovens- que praga isto de Missa dos jovens, Missa das crianças, etc. quando a Missa é só uma!- dizia que o grupo dos jovens fazem as maiores tropelias não só em termos de cânticos mas, também, nos textos pseudo-litúrgicos.
  • Para a Livraria (oficial) da Diocese- Livraria do Diário do Minho- tem tanto valor uma obra de autores consagrados como “A Igreja Canta” como a de um bom homem, mas amador, P. Salvador Cabral (que Deus tenha). Basta passar por lá e fazer uma análise das obras à venda. Pretendem que sejam os organistas e directores artísticos a fazer a escolha? Disparate! Quantos são os que têm formação para discernir entre o que é aceitável ou reprovável?!
  • Dos dezoito coros que consegui reunir no Sameiro, a seguir à Páscoa, nenhum teve uma palavra de apreço para com a ilustre figura do Sr. Presidente da Comissão de Música Sacra, agora inactiva e enexistente por falta de diálogo e inusitada agressividade. Para que serve?

Pergunto: o que queres dizer quando falas em Eucaristias mais atractivas? Li que te referias à “avaliação das celebrações”, à “formação dos adultos, dos leitores e acólitos”, à “instrução dos grupos corais”. E quem está a proceder a estas formações? Alguns “forasteiros” não investidos hierarquicamente, como é o caso do nosso querido colega e amigo, Azevedo Oliveira, a maior figura, de momento, da Música Bracarense, cujo papel, ao longo dos anos, não tem sido senão o de “escorraçar e espantar” os seminaristas, futuros colegas e responsáveis por uma porção do rebanho que queremos unido e em sintonia com a sâ doutrina, neste caso, da Música Sacra como consta do documento Música Sacra por ti compilado, creio  que em 2001, e extraido dos documentos conciliares pelos quais tanto se bateu o Mestre Manuel Faria e outros  grandes nomes que nos precederam. A este, Azevedo Oliveira, é que competia levar a efeito a formação na arte de “bem cantar” e no espírito que deve enformar todo o acto litúrgico. Alguém o vê? Claro que há párocos sensatos e prudentes que  dialogam com os intervenientes na Liturgia, esclarecendo-os e mostrando-lhes o empenho que devem colocar no que dizem e no que fazem. Não esqueças, porém, que a maior parte, sobretudo os que se ordenaram nos últimos 20 anos, que nem receberam formação musical adequada nem tiveram uma  “praxis”  suficiente que os capacite para saborear e distinguir o bom do trivial.

A Igreja- não só a Bracarense- entrou pelos caminhos da pedagogia do ensino público onde impera o “facilitismo” e o “deixa correr”. Isto desde a Catequese até aos funerais. Os Catequistas “pegam” nas crianças e fazem delas marionetes durante a liturgia “empurrando” os pais para segundo plano quando deveriam ser eles a sussurrar-lhes ao ouvido: “meu Deus, eu creio…”, “Avé Maria”…. Fazem deles “ovelhinhas obedientes” que executam  e lêem aquilo que lhes mandam. E isto acontece até ao Crisma. Se os sacerdotes aproveitassem, pelo menos, as multidões que se juntam nos funerais, ainda com resquícios de alguma fé, para proclamar, alto e bom som , as verdades em que acreditamos de modo a que, “oportuna e inoportunamente” os seus ouvidos se “incomodem” por escutar o que não gostariam de ouvir e, muito menos, de pensar, talvez as nossas igrejas estivessem mais cheias.
Sei que é um disparate estar a dizer isto a quem o estou a dizer. É “ensinar” o Padre Nosso ao “vigário”. Mas acredita, D. Jorge, que me sinto profundamente magoado com a inoperância do responsável pela Música Litúrgica, com a maneira como, durante mais de 25 anos, tem sido agressivo, impaciente, anti-pedagogo para com os seminaristas e o estigma que lhes incute. Há outros padres novos que deveriam ocupar o lugar dele como o P. Nuno Rocha, o P. Marcelino ou o P. Juvenal. Fariam, de certeza, melhor trabalho.
Não posso deixar de referir os disparates que têm ocorrido no que se refere aos instrumentos e instrumentistas. Fazem-se restauros e adquirem-se instrumentos litúrgicos caríssimos e, depois, não temos quem os toque. Caso da Sé, de S. Bento e do Sameito, entre outros. Gasta-se dinheiro em obras de fachada cuja manutenção fica caríssima, mas não há nada para dar a alguém competente para tocar os instrumentos e orientar os coros das principais igrejas de Diocese aonde acorrem multidões de fiéis.
Amigo D. Jorge, desculpa este desabafo mas não podia deixar de o fazer. Também não iria com ele para a comunicação social pois detesto discussões na praça pública. Admiro o que se está a fazer no arciprestado de Melgaço. Antes de cada tempo forte do ano litúrgico, um conjunto de músicos e sacerdotes juntam-se para escolher um leque de cânticos adequado a esse tempo. Marcam um fim de semana e trabalham esse conjunto de cânticos de modo a que sejam executados com o possível rigor mas, sobretudo, com a alma e, assim, não andem ao sabor de grupinhos mais ou menos ignorantes e laxistas. Não será uma boa ideia caminharmos neste sentido?
Um abraço e que a Igreja seja mais santa.

Costa Gomes

sábado, 5 de maio de 2012

ÚLTIMO DIA DE ENCONTROS NO SAMEIRO - DIA DA MÃE


ENCONTRO DE COROS NO SAMEIRO
DIA  06/ 05 /2012.
GRUPO CORAL de Azurém-Guimarães
Regina Coeli                      - D. Pedro de Cristo
Sangue de Cristo                     -Manuel Faria
Glória a Deus                           -G. F. Haendel
Director artístico:     Prof. Hermano Filipe Carneiro

 
GRUPO CORAL Laudate Dominum- Vizela
Ave Maria                                 _ D. Matteo Tosi
Sanctus                            _  J.P Lecot
Mil cânticos                           _P. Alexandre Santos
Órgão:    Paulo Oliveira
Director artístico: Pedro Marques

GRUPO CORAL de S. João de Airão
Regina coeli                         -M. Faria
O Santíssima                        -Harm. M. Faria
Aleluia                                    -M. Simões
Director artístico: António Fernando Cartas

GRUPO CORAL  de Areias de Vilar
Ave Maria                        _ Jacob Arcadelt
Ave Verum                        _ W.A. Mozart
Cantate Dominum            _H.G. Barrionuevo
Director artístico: Deolinda Martinho

REFLEXÃO
Eis-nos chegados ao fim desta série de encontros de coros vindos de Braga, Barcelos, Famalicão, Guimarães e Fafe. Foram vinte grupos. Houve algum esforço da parte de todos os participantes mas nada de impossível. Creio que todos ficaram satisfeitos não só porque estiveram na Casa da Senhora do Sameiro mas também porque, aí, tiveram a oportunidade de fazer ouvir a sua voz, o melhor instrumento com que a Natureza nos dotou.
Em cada encontro tive a preocupação de provocar a reflexão sobre aspectos importantes do canto na Liturgia partindo, como não podia deixar de ser, dos documentos oficiais  da Igreja, nomedamente o resumo de D. Jorge Ortiga, A Música Sacra, datado de 2001.
Aqui vai a última.

CELEBRAÇÕES COM JOVENS
Há uma tendência generalizada de, nas chamadas “eucaristias para jovens”, se executarem cânticos (ou canções) muito próprias da sua jovialidade mas com pouco sentido litúrgico. Acontece, ainda, que não sendo toda a assembleia constituida por jovens, estes como que “impõem” um determinado estilo que nada diz aos mais velhos.
É necessário caminhar para o meio termo e recordar os princípios básicos: competência musical e competência litúrgica. Ao pastor ou alguém da sua confiança compete supervisionar, elucidar, formar e informar. Tem tanta obrigação de o fazer como um professor tem obrigação de cumprir o programa da sua área disciplinar.
É um hábito muito mau – e isto acontece quando os cânticos são para as crianças – fazer adaptações de textos para melodias de outras proveniências, muitas vezes completamente profanas ou lúdicas. Por onde se dividirá o pensamento das crianças: pelo texto, supostamente de cariz religioso ou pela melodia de carácter lúdico e profano?
A encíclica “Musicae Sacrae Disciplina” de Pio XII refere a importância da música na Liturgia como uma modo sublime de louvor a Deus. Esta ideia já vem do Antigo Testamento:
*“Todo o Israel dançava diante de Deus com instrumentos de madeira trabalhada: cítaras, liras, tímpanos, sistros e címbalos”;
* David fixou as regras da música no culto sagrado;
* As primitivas comunidades, mesmo antes de surgir o dia, cantavam um hino a Cristo;
* Tertuliano diz que, nas assembleias dos cristãos “se lêem as  Escrituras, cantam salmos e promove-se a catequese”;
* Após a liberdade concedida à Igreja por Constantino, surgiram novos hinos, novos cânticos consoante a cultura dos povos que se convertiam ao cristianismo;
* Após o séc. IX/X, com o surgimento de novos hinos e novas formas de cantar, a música litúrgica haveria de atingr o seu esplendor nos séc. XV/XVI com o apogeu da polifonia e dos conjuntos vocais acompanhados com o  órgão de tubos;
* Como em todos os tempos, os abusos foram surgindo e houve necessidade da intervenção da autoridade eclesiástica no sentido de expurgar da música sacra tudo o que não contribuia para a sua verdadeira finalidade.
* A liberdade do artista (compositor ou director) deve sujeitar-se à finalidade última da sua criação: o culto divino. Assim, qualquer arte religiosa, exige artistas inspirados pela fé e pelo amor. A finalidade principal é a de elevar piedosamente a sua mente para Deus.
*Trazer decoro e ornamento às vozes do sacerdote e do povo cristão que louva o Deus Altíssimo;
*Elevar os corações dos fiéis a Deus tornando vivas e fervorosas as orações litúrgicas e, assim, louvá-lo e invocá-lo com mais intimidade e eficácia;
* Devem, por isso, os cânticos terem origem em fiéis com provas dadas de competência teológico/pastoral , competência musical, aprovação do ordinário e serem executados com voz límpida e adequada expressão.

E, por último, o pensamento de Santo Agostinho: “as nossas almas  elevam-se na piedade e na devoção de uma forma mais perfeita quando as santas palavras são cantadas e os nossos sentimentos encontram no canto uma relação íntima que nos aproxima mais de Deus”.

…………………………………………………………
NOTA: O nosso trabalho nunca está acabado. Não vamos fazer o “impossível” mas o melhor possível. E temos Mestres que nos precederam e nos mostraram o caminho. Este está aberto a críticas construtivas e a novas ideias. Não deixem de contar aos outros “o que viram e ouviram”. Poderemos ser muitos mais. Assim Deus nos ajude.
acostagomes@gmail.com