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domingo, 4 de abril de 2010

IN MEMORIAM de JOAQUIM DOS SANTOS

(Vilela, Cabeceiras de Basto, 13.4.1936 – Moimenta, Cabeceiras de Basto, 24.6.2008)

"Talvez começar por dizer que a morte de Joaquim dos Santos é a negação da própria morte. É-o para os crentes, para aqueles que o conheciam como padre e homem de crença profundamente cristã, comungando com ele a fé na vida eterna, a verdadeira vida que alcançamos depois da vida. Como também o é para os que não crêem, mas que o recordam como maestro de uma obra musical ímpar, prolífica e cheia de uma qualidade inspirada, de uma qualidade intocada, de uma qualidade verdadeiramente artística e excelente.

Joaquim dos Santos, Doutor Joaquim dos Santos, Padre Joaquim dos Santos, Maestro Joaquim dos Santos, permanece assim na memória e nas orações, e a sua obra, como a sua fé, granjeiam-lhe a eternidade.

E é, contudo, com um sentimento de tristeza e de perda que falamos de Joaquim dos Santos, que para além de artista e de membro da igreja, era um grande homem, um ser humano de excepcional bondade e gentileza e alegria e inteligência, destes que fazem realmente falta ao mundo. Eternidade rima, no seu caso, com saudade.

Outros lhe fizeram a biografia e o ensaio crítico, outros lhos farão, como é devido. Nós queremos-lhe fazer uma homenagem toda humana, recordar o poeta que tomou como mote, logo no início da sua carreira sacerdotal e musical, quando estudava em Roma no Instituto Pontifício de Música Sacra, os versos de Sebastião da Gama:

A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar…

Ai linda longa melodia imensa!…
- Por mim os dedos passa Deus e então
já sou apenas Som e não
se sabe mais da corda tensa…


Recordar o poeta que escolheu, quando se lhe ofereceram as posições de relevo em âmbito profissional e artístico, quando se lhe abriam as portas do mundo, a fuga do mundo, recolhendo-se nesse pedaço de paraíso onde viveu toda a sua vida – a Casa da Casinha, em Cabeceiras de Basto – tendo por companheira e amiga a sua irmã, Mariazinha, e nos últimos anos um cão que, de tão fiel, morreu no mesmo dia do dono.

Recordar, enfim, o poeta que de música teceu a sua poesia, e que à Roma da sua juventude e dos seus anos de formação regressou no final da vida, edificando aquela que será, provavelmente, a parte mais significativa, interessante e eminente da sua obra, o auge da sua maturidade artística e humana, indissociavelmente ligada à igreja nacional de Santo António dos Portugueses.

Muitas vezes, a criação da sua música era como que a sublimação do som das palavras. A ligação do Maestro Joaquim dos Santos à poesia foi fortíssima desde o exórdio romano (1963-1968) quando ousou apresentar no concerto anual do Pontifício Instituto de Música Sacra uma composição para coro e piano – o piano era então considerado um instrumento pouco adequado para a música religiosa – baseada em Sebastião da Gama. A corda tensa que sou foi apresentada a 22 de Maio de 1966, executada pelo coro dos alunos do Instituto e pelo pianista Luca Lombardi, dirigidos pelo próprio compositor.

Foram depois inúmeras as vezes que recorreu às palavras para compor. Era aquilo a que chamava as suas “ousadias”. Tal foi o caso das cantatas A Noiva do Marão e Santo António dos Portugueses e do oratório Travessia, construídas sobre poemas do bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, e todas três apresentadas em Santo António dos Portugueses. Recordamos também os poemas de Miguel Torga trazidos a Roma pelo Ançãble Vocal (27.04.2002) e todas aquelas composições baseadas em textos bíblicos, geralmente concebidas para o serviço religioso e divulgadas durante anos na Nova Revista de Música Sacra e em Música Nova, publicações periódicas que fundou e com as quais colaborou assiduamente.

A par do canto gregoriano, que veio estudar a Roma e cujos ecos sentimos em muitas das suas composições, outra fonte de inspiração primordial eram as melodias populares, recordação que vem das origens rurais em que a música fazia parte do quotidiano, no trabalho e na festa, e das tradições da sua própria família. Daí serem Cantigas da Minha Terra e Viva a pândega as primeiras obras que apresenta publicamente, ainda no tempo de frequência do Seminário Conciliar de Braga (18.03.1961) e toda uma vasta produção posterior, que tem um duplo e importantíssimo objectivo.

Por um lado, aquele da recolha etnográfica de temas tradicionais, passados informalmente de geração em geração, e por isso em perigo de se perderem; a sua fixação qualificada na pauta musical, e os arranjos que lhes fez posteriormente, adquirem assim um valor de conservação histórica, mas também o de inspiração de obras inovativas, na linha do que fizeram os maiores compositores portugueses do século XX. Por outro lado, e aqui se revela um generoso aspecto pedagógico e de incentivo das artes, as obras do Maestro eram feitas com o intuito de serem executadas, independentemente das capacidades técnicas dos executantes. Por isso, por longos anos, toda a sua produção foi considerada “menor”, associada redutoramente às suas numerosas composições para banda e para a liturgia. Um artista de grande fôlego criativo, mas que nunca se coibiu de escrever música para todos, de qualificar a vida dos mais humildes com a sua música, dedicando-lha e oferecendo-lha.

O encontro com Santo António dos Portugueses permitiu a Joaquim dos Santos, também neste capítulo, dar mostra da sua imensa capacidade inventiva, ilustrada e popular em simultâneo. Os responsórios para coro e órgão Christus factus est e Crucem tuam trazidos pelo Ançãble em 2001, o Prologus, 6 Impressões musicais do Evangelho de S. João executados pelas pianistas Ana Telles em 2002 e Rosa Villar Córdova em 2003, ou as 4 canções populares portuguesas (“Ó tia Aninhas”, andantino, “Espadeladas”, moderato assai, “Debaixo da oliveira”, andante cantabile e “O ratinho malcriado”, allegro grazioso) tocadas pelo Quintetto Metamorphosis em 2004 são disto exemplo. Pondo em destaque as raízes populares, eles são sem dúvida peças de música erudita, interpretada por instrumentos eruditos, em ambiente e para um público erudito.

Mas o encontro com a igreja nacional de Roma, feito através do seu reitor, Monsenhor Agostinho da Costa Borges, com quem estabeleceu rapidamente uma amizade profunda, constituiu em muitos outros aspectos um momento altíssimo na carreira de Joaquim dos Santos. Este fez-se através de Isaías Hipólito, aluno de Joaquim dos Santos no Seminário Conciliar de Braga, que orientara como organista e director os serviços litúrgicos da igreja de Santo António dos Portugueses, enquanto estudava em Roma, no final da década de 90.

A sua primeira obra executada na via dei Portoghesi foi, a 10 de Junho de 2000, Lamentações do Profeta Jeremias, pela então denominada Capela Musical de Santo António dos Portugueses, dirigida pelo Maestro Massimo Scapin. Assim se iniciava uma colaboração intensa, que não só o induziu a criar obras propositadamente para a igreja dos Portugueses, mas a fazê-lo muitas vezes em ocasiões de especial relevância dentro da agenda cultural da instituição, como fossem os dias de Portugal e das Comunidades Portuguesas, na festa do patrono, Santo António, ou nas celebrações da Imaculada Conceição.

Quatro anos após a sua estreia em Santo António, pelo dia de Portugal, Joaquim dos Santos trouxe em primeira audição um Concerto per pianoforte ed orchestra, executado por Ana Telles e pela Orchestra Nuova Amadeus dirigidas pelo Maestro Jean-Sébastien Béreau – um desafio lançado direcatmente pela pianista e pelo maestro ao compositor, que o aceitou. Para celebrar o patrono da igreja compôs a cantata Santo António dos Portugueses, em 2002 (com a participação do barítono Ettore Nova e a direcção de Anne Randine Overrby), a sinfonia Roma Eterna, em 2003 (direcção de Ovidiu Dan Chirila), e o Concerto para violino e orquestra, em 2005 (com o jovem Emanuel Salvador). Enfim, por ocasião da Imaculada Conceição, vieram a cena A Noiva do Marão em 2000, Carmen Fatimale e Arma virosque em 2005, Le forme dello spirito, em 2006 e o Concerto per violoncello e orchestra, em 2007 (com o violoncelista Simonpietro Cussino).

Estes e outros artistas que executaram obras de Joaquim dos Santos – e muitos houve para quem o Maestro escreveu propositadamente, tais como Giampaolo Di Rosa, Vítor Matos e Domingos Castro para não repetir nomes – recordam como na vida do Maestro música e amizade andassem a par: tantas amizades nascidas através da música e tanta música inspirada pelas amizades. A generosidade que o distinguia transpunha-se para a pauta; de facto, são propositadamente reduzidas as suas notações agógicas, dando oportunidade aos músicos de participarem na sua criação artística, interpretando mais livre e individualmente as linhas máximas da melodia que compusera. A música era princípio e fim e veículo das suas emoções, e por isso lhe era fácil fazer amizades através da música.

E talvez porque pusesse “a sua alma de sacerdote em cada coisa que fazia”, como costumava dizer, a música (princípio e fim e veículo das emoções) era matéria do seu máximo rigor e respeito enquanto expressão de uma inspiração divina, a “corda tensa” por onde passavam os dedos de Deus. E era assim que o seu trabalho se desenvolvia, amorosa e aturadamente, matutino, quotidiano, grave, ao som das águas correntes que atravessam os fundamentos da casa paterna, no seu escritório debruçado sobre o verde total do Minho, o Tâmega a correr em baixo e ao fundo a “Noiva do Marão”, o Santuário de Nossa Senhora da Graça, que lhe inspirou em 99 a magnífica cantata. O trabalho a par das orações que fazia regular e canonicamente, na capela dessa mesma casa

Em Roma permanece a recordação quase meia centena de obras apresentadas em oito anos, a maioria das quais em estreia absoluta em Santo António dos Portugueses, compostas propositadamente para esta igreja e para os seus artistas, a um ritmo admirável e inspirado, como se nele houvesse a percepção de que o tempo era escasso e precioso. Meia centena de obras correspondentes a cerca de trinta deslocações do compositor e de sua irmã à via dei Portoghesi, onde se sentiam bem, como em casa própria. Concertos que não esquecemos, em que não esquecemos esse grande homem, simples e genial, que falava com o seu sorriso."


in http://www.ipsar.org/modules.php?name=News&file=article&sid=12
por Francisco de Almeida Dias
Roma, Julho de 2008
Publicada por Nuno em 15:33 0 comentários
para ouvir... "Largada" - poemas do Mar, Miguel Torga


Largada.

Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiados por sinais
De uma agulha inquieta como elas.

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe, Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfunadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviram no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

Miguel Torga (1907 – 1995)


Publicada por Nuno em 15:18 0 comentários
Etiquetas: interpretação de Ãnça-ble vocal
Sábado, 12 de Julho de 2008
...o Maestro...13 de Abril de 1936
"Frequentou os seminários arquidiocesanos de Braga, onde iniciou os estudos musicais, que desenvolveu sobretudo sob orientação de Manuel Faria. Do seu principal mestre recebeu os primeiros impulsos para a composição musical, de que resultaram algumas obras, ainda como estudante; mas desse contacto resultou, sobretudo, o gosto pela composição, que implicou a exploração de novos caminhos musicais, mesmo se bastante distintos do mestre.

Ordenado presbítero e após breve passagem pelo Conservatório de Música de Braga, prosseguiu, a partir de 1963, os estudos em Roma, no Pontifício Instituto de Música Sacra, como bolseiro do Estado Italiano e da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1965 foi premiado pelas suas composições, que foram executadas em concerto.

Durante a sua estadia em Roma, fez ainda o curso de direcção e interpretação polifónica no Conservatório de Santa Cecília.

Regressado a Portugal, levou uma existência simples, entre a leccionação musical a vários níveis e, sobretudo, à composição. Por temperamento avesso a todo o tipo de protagonismo, durante a sua vida foi algo ignorado pelos seus compatriotas. Por outro lado, o seu estilo absolutamente oposto a qualquer género de exibicionismo ou snobismo contrastava com o seu entusiasmo pelas inovações musicais, sobretudo do séc. XX. Isso permitiu-lhe juntar, na sua basta obra, trechos de enorme simplicidade e profunda raiz popular com partituras elaboradas, ao nível da melhor produção musical contemporânea.

Das suas criações de maior vulto destaca-se um bom número de obras corais sinfónicas (Passio et mors D.N.J.C secundum Lucam, o oratório Travessia, as cantatas Le Forme dello Spirito, Sonho do Infante, Noiva do Marão, Santo António dos Portugueses, vários Stabat Mater, vários Te Deum, orquestração da Missa em honra de N.S de Fátima de Manuel Faria, etc.) assim como não menos significativo conjunto de obras de câmara (algumas com recurso a instrumentos como marimba, bandolim, bandocelo, etc). É também abundantíssima a sua produção coral, desde simples harmonizações de canções populares, passando por trechos litúrgicos de vários níveis de exigência, até grandes obras para coro, com acentuado poder descritivo e arrojadas soluções, que revelam considerável maturidade no conhecimento e no domínio da técnica vocal específica, para além de uma capacidade expressiva extraordinária, com recursos relativamente simples.

Do conjunto inabarcável da sua produção musical poderia destacar-se o tratamento da orquestra (desde concertos para violoncelo (2), violino, flauta, clarinete, piano e até dois pianos e orquestra), que demonstra de forma suprema na sinfonia “Roma Eterna”. Possivelmente por ter crescido numa família em que o som da flauta acompanhava o dia-a-dia; talvez por essa infância ter decorrido num dos recantos mais bucólicos do Minho; talvez também pelas influências musicais de outros compositores (com saliência para Stravinsky), é especialmente exemplar o seu tratamento dos sopros. Por um lado, salienta-se a mestria com que introduz e combina os metais, que demonstra uma convivência de décadas, através da prática de direcção de bandas; por outro lado, sobressai sobretudo a beleza bucólica e simultaneamente arrojada com que joga com as madeiras, em continuação pessoal e inovadora de passagens típicas de Stravinsky. Ritmicamente, para além do compositor russo, é clara a influência de Britten, que também deixou a sua marca em certa predilecção pela percussão.

Em obras coesas, perfeitamente unitárias e completas, consegue um estilo que acolhe, sem preconceitos nem discriminações, os contributos de diversas fases da história da música. Desde o gregoriano aos nossos dias, sem a falsidade da mera citação, mas também sem estéreis subjugações a escolas ou estilos rígidos. De forma singelamente pessoal e única, deixando para trás academismos de todo o género, antecipou e prosseguiu, numa coerência rara, uma espécie de «pós-modernidade» musical, muito para além de qualquer modernidade forçada ou de qualquer classicismo anacrónico. É, pelo contrário, a simplicidade do seu pensamento musical que determina os recursos a utilizar, resultando disso obras claramente contemporâneas e, simultaneamente, naturais, evidentes, por isso acessíveis ao público com um mínimo de sensibilidade musical."


por Professor João Duque
Publicada por Nuno em 7:17

D. Joaquim Gonçalves e Joaquim dos Santos




Ao despedir-se do seu (e nosso) grande amigo, Dr. Joaquim dos Santos, em 25 de Junho de 2008, o Bispo de Vila Real fez algumas afirmações que tocam no ponto fraco a que chegou, em muitas celebrações litúrgicas, a qualidade dos cãnticos. Dando os parabéns à Diocese de Braga pelo dom de muitos músicos e sacerdotes que se têm dedicado ao cultivo da boa música litúrgica ( e não só). Incentivou a Diocese a "não perder ou desperdiçar este filão precioso" dizendo, com convicção, que "compor não "é para qualquer um mas para especialistas". Disse mais: "os grupos corais não se podem arrogar o direito de trazer para dentro das igrejas o que lhes apetece" chegando mesmo a afirmar que "muitas das modinhas actuais, que contaminam a música sacra, são fruto da mesma laicização que anda a esconder crucifixos e as aulas de moral". Para o Bispo, ser compositor deve ser uma honra mas também um serviço à comunidade: " Joaquim Santos partiu; mas os seus cânticos continuarão a ser executados e a evangelizar muitas almas" por muitos e muitos anos.

JOAQUIM SANTOS E A SUA OBRA

“Braga perde um músico ímpar e compositor exímio”. Esta foi a afirmação do Sr. Arcebispo no dia do funeral e é, também, de todos quantos privaram com Joaquim dos Santos. Foi uma notícia inesperada e, em meu entender, demasiado precoce e escusada. Quem conhecia a “paixão” deste homem pela música e pelo exercício mental que o levava a um constante trabalho para satisfazer, gratuitamente, os pedidos que lhe faziam sabia que, após o primeiro indício de enfarte não o deviam ter deixado ir para casa durante uns tempos medicamente aceitáveis. Ele não resistia sem entrar no “santuário” do seu escritório. Não vivia para ele mas para os outros. Não procurava a fama mas a alegria de ver os outros felizes após a execução das suas obras. Claro que, como qualquer humano, gostava que o seu trabalho fosse reconhecido, com algumas palmas e muita alegria. Mas Deus assim o permitiu e, a partir de agora, não podemos fazer mais senão recordar a sua memória, pedir para que já esteja junto do Pai e seguir o seu exemplo executando, analisando e promovendo a sua obra para que, à maneira de Manuel Faria de cuja escola saiu este exímio compositor e vários outros de grande valor para a Música Sacra (e não só), também seja dada oportunidade a muitos dos seus admiradores de seguirem o caminho da Música Sacra e, mais adiante, estarem preparados para assumir os destinos da Música na Diocese. O tempo passa muito despressa. Temos de prevenir e preparar o futuro. Há talentos e sabemos onde eles estão. Há que apostar menos em “pedras” mortas e mais em “pedras” vivas. É uma virtude aplicar bem o dinheiro.
A propósito devo relembrar o pensamento e palavras de D. Jorge Ortiga no dia do funeral: “a vida do Padre Joaquim Santos foi isso mesmo: acolheu os talentos que Deus lhe deu e tornou-se, aos olhos d’Ele e dos homens, num músico ímpar e num compositor exímio” E continuou: “Deus é belo e Joaquim dos Santos, através da música, soube ser Sua testemunha”. E o Pastor conhece as carências da sua Diocese neste campo formulando votos para que “na Arquidiocese de Braga continuem a surgir pessoas com competências na área da música e componham a música de que precisamos”. Não deixou de reconhecer na obra de Joaquim dos Santos a “marca de qualidade na música que é interpretada nas celebrações”. Como ele tem razão!
Não dá para entender como se encontram à venda, em livrarias da Diocese, obras sem qualidade quer nos textos quer nas melodias, e sem o “imprimatur” da competente autoridade. No mínimo, nunca deveriam estar na mesma prateleira daquelas que têm o selo de qualidade. Vieram mesmo a propósito as palavras do amigo de longa data de Joaquim dos Santos, o Bispo D. Joaquim Gonçalves, no dia 25 de Junho. Depois de agradecer a amizade e os múltiplos poemas, da sua autoria, musicados pelo compositor falecido frisou: “isto de compor não é para qualquer um mas para especialistas” criticando as sonoridades que se ouvem em algumas celebrações. Referindo-se à laicização crescente que já avança para dentro dos templos referiu as “modinhas actuais que contaminam a música sacra” e advertiu os grupos corais (e, naturalmente, os seus maestros) que “não se podem arrogar o direito de trazer para dentro das igrejas o que lhes apetece”. Isto numa clara referência à “marca de qualidade” de que D. Jorge se havia falado.
O Presidente da Câmara de Cabeceiras fez uma síntese, para o DM, da personalidade de J. Santos que partilho inteiramente: “um homem simples, um sacerdote devotado e um compositor genial que muito honrou, honra e honrará Cabeceiras de Basto e as suas gentes”. E eu acrescento: também a Diocese de Braga e a Igreja de Santo António dos Portugueses em Itália onde apresentou as melhores obras concertísticas. E por cá conhecem-no?
Resta-nos preservar a sua memória, desejar que a sua obra seja dada à estampa, estudada, executada e que a humildade e simplicidade próprias de grandes compositores como ele, M. Faria e Fernandes da Silva encontre discípulos. Costa Gomes

MANUEL FARIA E A SUA OBRA

MANUEL FARIA e a sua obra

Depois de falar de Manuel Faria como homem bom, sábio e pedagogo exemplar, gostava de falar do “nada” que nestes vinte e cinco anos após a sua morte se fez, colocando a sua obra “debaixo do alqueire”.
Logo após a sua morte ainda se promoveram algumas homenagens, nomeadamente a execução da Missa em honra de Nª Srª de Fátima adaptada magistralmente para orquestra pelo seu e nosso querido amigo Joaquim dos Santos que, no momento em que escrevo estas linhas, soube que também partiu para o Pai mesmo sem se despedir dos amigos. Além desse concerto surgiram mais algumas manifestações em jeito de homenagem e de saudade. Mas depressa passou ao rol dos esquecidos.
Já em 1998 a sua sobrinha, Cristina Faria, fez uma síntese da vida e obra de Manuel Faria. Na nota de abertura o seu pai, Dr. Francisco Faria, refere que este trabalho “é também um ponto de partida para quem quiser, em completo à-vontade, estudar uma das grandes personalidades desta época e um criador que urge tornar conhecido no meio musical desta Pátria que sempre amou”.
Os seus discípulos e amigos estão completamente de acordo. Mas... como é possível estudar, reproduzir, publicar e interpretar as suas obras se as mesmas são desconhecidas artistas e do público? Já sairam dos caixotes da Universidade de Coimbra? Já foram digitalizadas? Onde pára, por exemplo, o “Auto da Fundação e Conquista de Coimbra” que nunca foi executada, como afirma Cristina Faria? Como pode ser executada se ninguém a conhece? Um grande número de obras que constam do catálogo elaborado pela Autora não são minimamente conhecidas. Se continuarem no caixote sê-lo-ão? E quem deve tomar a iniciativa? Não serão os familiares e a Fundação Manuel Faria cuja actividade parece envolvida numa névoa?
Acho que a vitalidade da Música Sacra após a morte de Manuel Faria, de Fernandes da Silva há poucos anos e, agora, de Joaquim dos Santos se encontra abandalhada como um rebanho sem pastor. Já em 1967, na I semana de Música Sacra em Braga, Manuel Faria se batia denodadamente pela pureza da Música na Liturgia afirmando a esse respeito: “.... todos os que pautam a sua vida por uma “Fé”, lutam por causas perdidas... Não quero saber se a causa (da Música Sacra) é perdida ou ganha. Só quero saber se é de Deus ou do diabo. Dentro da barca de Pedro não me importo de ir para o fundo. .....” (in Manuel Faria, Vida e Obra, de Cristina Faria, pág. 36).
Poucas vezes se falou, durante estes vinte e cinco anos, da obra de Manuel Faria sobretudo com a preocupação de a mostrar e colocar à apreciação dos seus discípulos, amigos e amantes da boa música. Pergunto: como executá-la e apreciá-la se não sabemos onde ela está para a dar a conhecer? Não estará aqui, no esquecimento do Mestre, uma das razões da banalização da Música Sacra? Não é a história vivida pelos nossos maiores e o conhecimento da mesma um precioso contributo para a construção da nossa própria história?
Não aceito que Manuel Faria tenha “morrido”. Não entendo este silêncio de vinte e cinco anos. Não compreendo a ausência de estímulos que conduzam a actual geração a uma sadia prática musical, no caso concreto, à escolha e execução de boa Música Litúrgica. Onde estará o problema? Um está na falta imperdoável do esquecimento da nossa história, próximo passado. Mas há outras razões.
Costa Gomes

domingo, 22 de novembro de 2009

A MÚSICA NA LITURGIA (7)

A MÚSICA NA LITURGIA (7)

(Uma síntese)
Nesta última reflexão sobre a “Música na Liturgia” vamos transcrever um resumo, em 14 pontos, da doutrina da Igreja contida nos documentos referidos logo no início destas reflexões. Trata-se de um folha A4 que, há bastantes anos, nos veio ter às mãos. Vale a pena ficar com este resumo.
1.As celebrações Litúrgicas, sobretudo as dominicais, deverão ser realizadas com canto. Pelo canto a oração torna-se mais vibrante e penetrante levando a assembleia a celebrar mais profundamente a Fé.
2. O canto e a música, na Liturgia, estão ao serviço da Fé na Palavra de Deus. Não pode ser obstáculo à participação activa de todos os fiéis. Por isso, a música deverá ser verdadeira forma de arte e expressão autêntica do mistério que celebra. Daí a importãncia do diálogo entre o Padre (agente pastoral) e o Músico (especialista do som) para se fazer uma boa ligação na acção Litúrgica.
3. Os textos cantados deverão ser Bíblicos ou tirados dos textos Litúrgicos ou neles inspirados. Os textos ou poemas que não tenham esta marca (conteúdo Teológico, rigor doutrinário e qualidade literária) mas, somente, portadores de mensagem deverão ser reservados para exercícios piedosos e/ou convívios em que se pretenda fazer passar a mensagem Evangélica.
4. O canto da assembleia ocupa um lugar de destaque nas celebrações Litúrgicas. É imprescindível a motivação dos fiéis para a participação no canto, nomeadamente no canto de entrada, no salmo responsorial, nas aclamações e respostas ao presidente.
5. Há vários intervenientes no canto Litúrgico: o presidente, o salmista, o coro, o director do coro e da assembleia, o organista e outros instrumentistas. Todos devem revelar: maturidade humana, riqueza espiritual, qualificação musical e competência pastoral. A boa vontade e habilidade, só por si, não chegam.
6. O salmista deve ser um solista com características especiais: com preparação vocal, musical, bíblica e espiritual: anuncia, louva e implora. Canta o salmo no ambão (o lugar destinado ao anúncio da Palavra).
7. O coro também desempenha um ministério (serviço) Litúrgico. Todas as Igrejas deviam ter um coro para animar, estimular e sustentar o canto da assembleia. Os elementos do coro devem ter preparação bíblico-litúrgica, tecnico-musical e espiritual.
8. O director do coro deve englobar as qualidades referidas para o salmista e para os coralistas bem como uma boa preparação musical. A ele compete a escolha do repertório Litúrgico com qualidade musical e a preparação técnica dos coralistas. Não deve dirigir a assembleia e/ou o coro do ambão.
9. As crianças e os jovens devem ser alvo privilegiado para a formação como cantores e animadores da Liturgia. São Igreja em crescimento. É o início da formação. Esta nunca estará completa.
10. A Música Litúrgica visa, em primeiro lugar, o canto (voz) como instrumento principal e vivo do ser humano. Através da voz exprime a riqueza da sua inteligência e a grandeza do seu coração no louvor a Deus.
11. O órgão (de preferência o de tubos) tem como objectivo a sustentação das vozes e a amplificação expressiva do canto. Também o organista deve ter preparação adequada e um desejo constante de melhorar tecnicamente, tudo em função do objectivo essencial na Liturgia. Deve evitar os registos com vibrato e reverberação bem como exibicionismos (mais adequados a concertistas). Os instrumentos não devem abafar as vozes.
12. Poderão admitir-se outros instrumentos que, pelo seu uso ou pelo sentir da comunidade, não estejam identificados com contextos estranhos à Liturgia. Também a sua manipulação deve ter como único objectivo a elevação espiritual de quem os toca e de quem escuta. Nada de instrumentos rítmicos ou de diversão.
13. Não se deve tocar (nada) durante a consagração nem enquanto o sacerdote ou ministro proclama um texto ou recita uma oração.
14. Não à música inspirada nos modelos comerciais, no rock, no jazz e afins. Não às adapatações musicais de mau gosto (vindas de contextos conotados com situações impróprias da Liturgia) e aos textos de conteúdo doutrinário duvidoso (pietistas) bem como aos “encaixados” na melodia sem qualquer rigor métrico.


Com esta síntese damos por concluidas estas reflexões que, esperamos, venham a ser úteis aos Pastores, aos directores e a quantos têm responsabilidade no modo como se louva o Deus Altíssimo, tão alto e infinito como tão próximo da pequenez e miséria humana.

acostagomes@gmail.com

A MÚSICA NA LITURGIA (6)

A MÚSICA NA LITURGIA (6)

(Práticas diversas)
O que ficou escrito nos artigos anteriores é, em resumo, o pensamento da Igreja universal. Os Protestantes, pelo menos no passado, já nos deram exemplo no que se refere à leitura da Bíblia. Continuam a dar no que se refere à Música Litúrgica: usam um livro de cânticos, com a música escrita, nas celebrações. Dá gosto ouvir as suas assembleias a cantar em uníssono.
Também na vizinha Espanha, nomeadamente na Galiza, há o chamado “Cantoral Litúrgico Nacional” apresentado em Orense por D. Ramiro Gonzalez. Na apresentação teceu algumas considerações dignas de reflexão: “as qualidades destes cânticos deve ser julgada pelos competentes; só pode fazer um julgamento quem conhecer as normas da celebração Litúrgica, da Música e do canto Litúrgico e tenha o sentido do ministério; a Sagrada Escritura e a Liturgia são as principais fontes do canto para as celebrações; compositores, instrumentistas e directores artísticos devem conhecer os critérios objectivos e claros que regem a música e o canto na Liturgia; concretamente, na Galiza, há um repertório de coisas boas e menos boas; é preciso insistir na qualidade e inspiração religiosa”.
Nestes apontamentos de D. Ramiro está um resumo perfeito de como deve ser o canto nas celebrações. Resumo idêntico, ainda que mais disperso, está no documento “Música e Liturgia”, de D. Jorge Ortiga, produzido em 2001.
Só quem quer estar com um pé dentro e outro fora da Igreja é que não conhece ou não quer cumprir as normas da Música Litúrgica. Umas vezes será por ignorãncia, imperdoável nos Pastores; outras por teimosia e com a falsa ideia de modernidade e juventude. Aliás, é um disparate aliar a “juventude” à idade de uma pessoa. Pela idade, os mais velhos já por lá passaram; pela juventude de espírito e dinamismo, os mais novos poderão vir a passar.
Um outro exemplo, que não podemos deixar de exaltar, é o que acontece no Arciprestado de Melgaço. Os directores de coros e, com certeza, muitos coralistas e párocos, reunem-se antes de cada “tempo forte” do ano Litúrgico e fazem uma selecção de cânticos adequados às celebrações desse tempo. Ensaiam, então, os cãnticos escolhidos, explicam o sentido dos textos dos mesmos e executam-nos com adequada epressão. A prioridade vai para a primeira voz, como principal. As restantes ficam ao critério e capacidade do director artístico de cada paróquia. O resultado, segundo consta, é magnífico. Entendemos que é um exemplo a seguir em todos os arciprestados.
A escolha dos cânticos adequados a cada domingo deve merecer a atenção dos directores e seus colaboradores. O ideal será fazer a leitura dos textos de cada celebração e, pelo sentido dos mesmos e perante o repertório musical já conhecido, fazer a escolha dos mais adequados. É uma tarefa importante que exige tempo, gosto e paciência.
Temos, em Braga, a Celebração Litúrgica que, para além dos textos de cada domingo, de ideias para as homilias e outros documentos, traz uma sugestão de cânticos para cada momento da celebração. É pena que, pelo menos a sugestão de cânticos, não seja colocada num sítio da internete. A página oficial de Fátima bem como o sítio “MELOTECA” apresentam sugestões. Acontece, porém, que boa parte dos cânticos não são conhecidos no Norte.
(Continua)
acostagomes@gmail.com

A MÚSICA NA LITURGIA (5)

A MÚSICA NA LITURGIA (5)
(O compositor)

O conceito de “compositor musical”, nas últimas décadas, tem sido desvirtuado. Tem um sentido tão lato que, quem inventa qualquer cantiga, mesmo sem a saber passar para o papel pautado, já é considerado compositor. Mas isso não corresponde à verdade.
Compositor é, em princípio, aquele que fez escola e tirou o curso de composição como especialização na Música e dele faz prática. Há (houve) alguns que foram, na prática, auto-didatas. Com muito treino de solfejo, prática coral (no caso, de música para a Liturgia) e algumas lições de harmonia adquiriram a paixão e o gosto pela composição lançando-se na criação de inúmeras melodias quase sempre com muita qualidade. Basta recordar, na diocese de Braga, os Padres Manuel Alaio, Correia, Brás e Borda, entre outros.
Manuel Faria ainda antes de ter qualquer lição de harmonia (em 1938), compôs a conhecida Missa em honra de Nossa Senhora do Sameiro que rapidamente começou a ser executada por todo o lado. Ele mesmo, quando mais tarde aceitou imprimi-la, reconheceu que tinha algumas passagens tecnicamente menos correctas. Mas tem o essencial de uma obra para a Liturgia: tem arte, tem exaltação e júbilo, tem súplica e louvor e, tendo momentos de elevado virtuosismo, não deixa de ter, também, momentos de grande piedade.
Ao compositor, em princípio, não compete a construção do texto. Este, ou é tirado, directamente, dos textos litúrgicos ou é construido em forma poética por alguém que seja conhecedor das Ciências Divinas e cultor da poesia e suas regras. Não é fácil construir um poema com conteúdo doutrinário e com mensagem. Muitos dos que se cantam, mesmo nas celebrações, não são adequados e, acima de tudo, são discriminatórios. Explico: proliferam nas celebrações, sobretudo com jovens, melodias e textos executados com muita vivacidade que, dificilmente são acompanhados pela assembleia não tendo, sequer, uma pequena frase a ela destinada. O coro, nestes casos, monopoliza o direito de cantar.
Temos de aceitar que este procedimento não é aceitável e vai contra as normas conciliares.
Não podemos, porém, assacar responsabilidades somente aos jovens. Eles têm boa vontade e querem fazer o melhor que sabem e podem. A responsabilidade é dos Pastores que não se formam nem informam. Podem não saber cantar ou tocar; mas têm de saber os critérios exigidos pela Igreja no que concerne às celebrações e fazer uma avaliação de quanto se passa, neste caso, das músicas que os jovens escolhem.
Muitas dessas melodias e textos até são interessantes e com conteúdo teológico-pastoral. Mas, porque é que os seus compositores não as submetem à apreciação da legítima autoridade, a Comissão de Música Sacra? Os milhares de cãnticos publicados na Revista de Música Sacra foram avaliados por uma comissão de peritos. “É um grave erro introduzir tal género de música na Liturgia, a pretexto de uma pastoral moderna e actualizada”, lê-se na pág.10 de Música e Liturgia de D. Jorge Ortiga. Será isto uma humilhação para um compositor?
Na diocese de Braga (e não só) temos um repertório imenso e de valiosíssima qualidade, a maior parte produzido por Manuel Faria e seus discípulos. O que faz mais falta é a implementação dos encontros de coros litúrgicos, interrompidos há 25 anos, em que, em sadio despique, cada um procurava executar melhor que o outro. Foi uma época em que, praticamente, desapareceram das Igrejas as “charangadas” que agora voltaram.
(Continua)
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